A depressão masculina

No âmbito dum estudo em Psicologia da Educação, realizado por Sofia Silva, orientado por Pocinho e Garcês, sobre depressão, ansiedade e stress, verificamos, surpreendentemente, que foram os homens os que apresentaram maiores níveis de depressão.

Estes dados contrariam grande parte da literatura que sustenta que a depressão é aproximadamente duas vezes mais prevalente nas mulheres do que nos homens. Porém, existem autores que lançam hipóteses alternativas, nomeadamente a de que os homens tendem a apresentar diferenças sintomatológicas da depressão quando comparados com as mulheres.
   Segundo um dos principais manuais de classificação de transtornos mentais (DSM V), os sintomas depressivos mais comumente encontrados são: o humor deprimido acompanhado por um profundo sentimento de tristeza, uma falta de esperança perante o futuro, uma sensação de “vazio” e uma ausência de ânimo;  a falta de interesse e de vontade de realizar atividades anteriormente consideradas como agradáveis, preferindo o isolamento social; a diminuição de interesse sexual; as mudanças a nível do apetite refletindo-se no ganho ou perda significativa de peso; os distúrbios a nível do sono culminando em insónias e mudanças do padrão de sono; a agitação psicomotora com lentidão na fala; a perda de energia e fadiga na realização das tarefas comuns e rotineiras; a presença de sentimentos de culpa, de inutilidade, de baixa autoestima e de autoculpabilização;  as dificuldades de concentração na conclusão de tarefas comuns ou em processos de tomada de decisão; e o surgimento de pensamentos suicidas.
   Assim, o estado emocional de tristeza é uma das principais características da depressão, contudo a sua expressão é mediada pelo género. Enquanto que as mulheres tendem a demonstrar a depressão através da tristeza e do choro e da ausência de bem-estar em tarefas anteriormente prazerosas, os homens tendem a demonstrá-la através de sintomas de irritabilidade. Esta diferença pode ser explicada pelas normas afirmadas pela cultura ocidental que levam os homens a suprimir qualquer expressão afetiva de fragilidade, como por exemplo chorar em público, de forma a seguirem um ideal hegemónico de virilidade. A ausência desse sintoma pode condicionar a perceção da tristeza em grande parte dos homens e do seu diagnóstico de depressão, levando a um subdiagnóstico de depressão nos homens e a um hiperdiagnóstico nas mulheres.
   Este enviesamento de diagnóstico pode ter consequências negativas na saúde dos homens. A depressão é duas vezes mais frequente nas mulheres, mas o comportamento suicidário dos homens é três vezes superior ao das mulheres. Além disso, os homens têm mais risco de morrer do coração do que as mulheres.
   Sabendo que a OMS estima que, até 2030, a depressão será a primeira causa mundial de invalidez, é necessário (re)pensar o diagnóstico da depressão. Infelizmente, muitas pessoas com depressão não são diagnosticadas corretamente. E outras que não sofrem da perturbação recebem diagnósticos incorretos e são indevidamente medicadas.

 

Margarida Pocinho escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas