Um mundo mágico

Numa altura perto do Natal:

- papá o que há no céu?

- no céu há nuvens.

- mas a avó disse que o menino Jesus está no céu.

- o menino Jesus?

- sim, igual ao que tenho em casa.

- ah sim?

- o menino Jesus caiu do céu. E depois veio um monstro grande. O monstro era mau. E batia com o pé.

- monstro?

- e bateu no menino Jesus.

- bateu no menino Jesus? Quem, o monstro?

- sim. E o menino Jesus é de madeira.

- de madeira?

- sim, e partiu. O monstro deu com o pé no menino Jesus e partiu.

- e depois?

- depois ele foi aos médicos. Que arranjaram o menino Jesus. Há médicos que tratam. E médicos que arranjam. O médico arranjou o menino Jesus.

- ainda bem.

- e depois o menino Jesus regressou ao céu. Foi dormir.

- ok. E o monstro?

- o monstro foi para o mar.

- para o mar?

- sim. Um senhor atirou o monstro para o mar.

- um senhor? Quem?

- não sei o nome. .

- era o Hércules? (o pai a armar-se em espertinho)

- sim, era o Hércules. Tinha uma raquete.

- uma raquete?

- e deu com a raquete no monstro e ele caiu no mar. E agora já não pode voltar mais.

- porquê?

- porque é mau.

- e o menino Jesus?

- esse pode.

- e se o monstro voltar?

- não pode.

- porquê?

- porque o Hércules não deixa.

Esta é uma das imensas histórias que a imaginação de um rapazola de três e meio de idade torna realidade. Todos nós, pais ou todos aqueles que lidam com estes maravilhosos seres, têm as suas próprias histórias. Uma mais rocambolesca que a outra. É a forma simples como eles olham o mundo. E vão apreendendo o que os rodeia. E vão misturando as coisas na mais perfeita inocência e na pura convicção de que a letra do que ouvem e contam é mesmo assim.

Depois crescem. E aos poucos vão aprendendo que afinal a letra da coisa não é bem como pintam. O pai natal é uma invenção; coelhinho da páscoa só se for na panela; gnomos e duendes pertencem aos livros; que o céu é apenas o céu; que as pessoas não vivem para sempre; e que os verdadeiros monstros deste mundo caminham sobre duas pernas.

Aos poucos a magia vai morrendo e a imaginação é enclausurada no horário das 9 às 17, nas contas para pagar, na frustração das relações, na bica da manhã e no Johnny Walker da noite. E assim, de repente, o mundo passa a ser um lugar sombrio, onde povos prometem destruir outros e chamas gigantes consumem vidas.

Este ‘vinte-vinte’ que se iniciou não irá ser diferente dos outros. A ordem, a razão e o contrato social assim o impõem. Mas se quiserem, poderá ser um pouco melhor se deixarem a magia das crianças contaminar o vosso mundo. Porque a felicidade está nas pequenas coisas da vida. Está na cabecinha deste três-e-meio. Está na forma como eles percebem o mundo. Mágico.