As quotas e as eleições internas

É comum dizer-se que todos os modelos eleitorais têm as suas debilidades. Todos servem o interesse geral quando são justos e os comportamentos pessoais adequados. Todos patenteiam fragilidades quando os intervenientes primam por procedimentos pouco claros. Vem isto a propósito das eleições internas. Houve um crescendo de suspeição pela metodologia praticada nas diretas, em todo o leque político-partidário. Não me parece que alguma vez tenha havido extremo rigor na habilitação dos militantes para escolha dos líderes partidários, nacionais ou locais, mas a situação foi atingindo níveis inaceitáveis. No nosso país e em tantos outros, com sistema semelhante ou diferenciado, sempre houve falhas. Até no método de eleições primárias. Um exemplo importado por António Costa que serviu para usurpar a liderança do PS a António José Seguro. Num processo não muito linear, mas que parece vai ser repetido pelos socialistas.

Nas nebulosas políticas atuais não há inocentes, em nenhum dos partidos. Todos jogam o mesmo jogo, de alguma forma. Agora, há mais ou menos ética. E por vezes, não há ética nenhuma. Há força e dinheiro. O modelo inicial era o Congresso. Passou-se depois para a eleição direta, por ser mais fidedigna. À partida estaria tudo bem. Mas não! A falta de lisura das práticas atuais criou novas dificuldades, distorcendo, por vezes, os objetivos pretendidos.

A bagunça tem sido tanta que o modelo está a ser posto em causa. O PS parece inclinar-se para as primárias, abertas também a simpatizantes, previamente inscritos e pagantes. O PSD mantém a eleição restrita aos militantes com quotas em dia. Tudo seria muito sério se não fosse, num e noutro caso, o problema do arrebanhamento. Há os financiadores (alguém mete o dinheiro, que pode ser o candidato ou outros interessados), há os caciques arrebanhadores (os que pagam as quotas ou inscrições pelos militantes) e há os militantes que só para terem as quotas em dia, de borla, lá fazem o frete de ir votar no candidato que lhes é indicado. Tudo mal. Se atendermos que neste processo de escolha poderão estar futuros governantes e autarcas, há que moralizar o sistema. Por muito que se queira criticar Rui Rio, alguma coisa tem de ser feita no sentido da sua proposta, para dar credibilidade à política.

A nível local, o problema é semelhante e o impacto é grande. Para que as escolhas tenham maior probabilidade de sucesso futuro, os partidos e as suas lideranças não deveriam ficar prisioneiros dos angariadores de votos para as eleições internas. São dívidas que por vezes são cobradas a peso. A importância que se passa a dar localmente aos que bem descaradamente sabem se pôr em bico de pés, pelos serviços prestados nas internas, pode não ter correspondência junto do eleitorado. Aliás, muitos deles sabem que não têm qualquer hipótese de futuro sucesso eleitoral. Mas tomam de assalto as estruturas locais. Apenas querem as boas graças do poder. Usar influência. Para o que convier. Mais a título pessoal do que pelo interesse público concelhio ou partidário.