Três assinaturas de cruz

A abstenção dos três deputados do PSD-M na votação do Orçamento de Estado mais parece assinaturas em branco para um memorando negocial entre a República e a Região que até ao momento poucas novidades trouxeram para os madeirenses.

A ratificação do apoio para o novo hospital, promessa há muito anunciada por António Costa, não pode ser consideração suficiente para o início de um ‘namoro’ que acabou por fortalecer as negociações em torno de um plano orçamental que serviu em pleno as intenções socialistas.

E no papel, de facto, continua a não ser possível garantir que o Estado contribuirá com 50% dos gastos, mantendo-se ainda a lógica de que a Madeira terá de assumir primeiro os custos do investimento para receber depois o que lhe é devido. Um pouco à imagem do que acontece com o subsídio de mobilidade aérea, quem tem dinheiro viaja e recebe depois. Quem não tem, viaja cá dentro.

Não deixa, porém, de ser evidente que a Região acaba por dar, deste modo, o primeiro passo para a criação de um diálogo que poderá surtir mais dividendos em diversas frentes. E são muitos os fogos que ardem há imenso tempo, desde a redução dos juros da dívida até ao ferry, passando pela mudança no subsídio de mobilidade aérea citado supra, ou os 20 milhões de euros relativos aos subsistemas de saúde que continuam ‘perdidos’ em Lisboa. Mas a Madeira perde também nas transferências do Estado em comparação com os Açores, como tem perdido sempre nos últimos anos.

À primeira vista, portanto, é difícil decifrar as razões que conduziram ao entendimento formalizado pela abstenção dos social-democratas madeirenses na votação do OE2020. Mas fica claro que o parceiro em Lisboa deixou de ser o PSD de Rui Rio, isto claro, se o atual líder ganhar as diretas de amanhã.

Albuquerque assumiu neste processo, assim como nas diretas, um claro distanciamento entre a estrutura regional e a nacional laranja, valorizando as conversações em curso com os socialistas. Uma mudança radical de estratégia política, um pouco à imagem do que já fez Alberto João Jardim em anteriores momentos de governação socialista.

Resta perceber o que sentirão os socialistas madeirenses acerca deste hipotético compromisso entre Costa e Albuquerque. Já disseram que não acreditam no diálogo, que tudo não passa de uma farsa para sobrevalorizar o peso do Governo Regional junto do Estado. A observação voyeurista do tal bluff em curso do PSD-M faz sentido se mais nada resultar do entendimento que estará a ser efetuado, num Orçamento de Estado que volta a dizer muito pouco à Madeira, que também fica privada de integrar delegações nacionais em momentos específicos de decisão em Bruxelas.

À margem, por cá, entrámos no novo ano com ameaças de agressões a médicos e demais profissionais de unidades de saúde públicas. Razão evidente para dotar de mais e melhor segurança quem precisa de paz e tranquilidade para cuidar da nossa saúde. Também por isso é difícil perceber a razão pela qual foram desvalorizadas as ameaças e o sentimento de preocupação evidenciado por quem integra os serviços de saúde da RAM. Não basta assobiar para o lado e esperar que o momento seja passageiro. É preciso evitar que situações do género voltem a acontecer.