Sobre o fogo-de-artifício

Tem circulado pelas redes sociais uma publicação que elenca o montante despendido em fogo-de-artifício nesta passagem de ano, nas principais cidades do país. Pelo meio surge o Funchal, com um valor muito superior às restantes, o que tem sido razão bastante para a habitual ladainha do despesismo destes “chulos” ilhéus, que “queimam” o dinheiro dos impostos pagos pelos “portugueses”, quando há tantas pessoas a passar fome e frio, hospitais para construir, escolas para recuperar, crianças sem brinquedos e patudos deprimidos.

Esta recorrente linha de argumentação é profundamente demagógica, para não dizer que está eivada de má-fé. Em primeiro lugar, não podemos comparar o incomparável: o nosso réveillon é um cartaz turístico internacional, cujo retorno financeiro é comprovadamente muito superior ao investimento. Em segundo lugar, para além dos óbvios benefícios colectivos (impacto na economia, na ocupação hoteleira, no consumo, na imagem internacional da região e do país), os benefícios individuais não são negligenciáveis, apesar de mais difíceis de aferir. É um facto que a esmagadora maioria dos cidadãos é apreciadora de espectáculos pirotécnicos, pelo que estes podem ser considerados um “bem público”.

Sendo virtualmente impossível cobrar bilhetes aos beneficiários, dificilmente poderiam estes eventos ser organizados por empresas privadas, pelo que, não fossem os governos ou autarquias a promover este tipo de actividades, elas provavelmente não existiriam. Submetê-las a referendo também não me parece exequível, até porque, independentemente de um desagrado residual, as festividades de final de ano são consensuais.

Em suma, por maioria de razões, não faz sentido por em causa o espectáculo pirotécnico do réveillon funchalense.

Contudo, tal não significa que se deva caucionar e concordar com a execução do espectáculo, os seus custos, o seu impacto ambiental, os danos que provoca, entre outras “externalidades negativas”.

Esta análise pode e deve ir muito além da apreciação à beleza dos rebentamentos, por comparação com os anos anteriores, o que será sempre subjectivo: já se tornou habitual, de há uns anos a esta parte, o reiterado lamento de que “desta vez foi muito fraquinho”. Se calhar, as nossas expectativas é que estão cada vez mais elevadas.

Além disso, temos o direito, enquanto cidadãos, de escrutinar os termos dos contratos assinados em nosso nome, de questionar as razões para a empresa adjudicatária ser sempre a mesma, de indagar se não haverá outro tipo de fogo-de-artifício mais elaborado e com efeitos visuais mais requintados, de contestar a colocação de postos de fogo em zonas residenciais, em alguns casos com incidentes e prejuízos regulares, entre tantas outras questões e dúvidas que poderão ser suscitadas.

Resumindo, seria catastrófico para a economia madeirense se o nosso principal cartaz turístico fosse descontinuado, mas recomenda-se mais transparência em todo o processo que lhe está associado.

NOTA: Neste mês de Janeiro de 2020, completo 17 anos como colaborador de opinião na imprensa regional. Neste exercício de cidadania não remunerado, tentei manter os mesmos princípios que sempre me nortearam: pensar pela minha cabeça; evitar a banalidade e o discurso rasteiro; usar uma escrita cuidada e correcta, fazendo pensar sem ser hermético, e dando o melhor uso possível à ironia e ao sentido de humor.

Aos leitores que me têm aturado, agradeço a paciência. Confesso que a minha já vai faltando…

Tenham um Feliz 2020.