Os descartáveis

Vivemos tempos líquidos, nada é para durar.

A voracidade do consumo no mundo capitalista impõe que os objectos sejam descartáveis, isto é, para jogar fora depois de usados, e muitas vezes com uma única utilização. Esta existência inglória e efémera dos artefactos parece aproximar-se do mundo da política e da administração da coisa pública. Na política em geral, já nada surpreende o cidadão comum com um mínimo de bom senso e honradez. As teias da política são calculistas, tácticas, volúveis e de consumo imediato e o adversário de hoje é o compincha de amanhã. Com qualquer malabarismo, num ápice se descarta uma voz incómoda, se usa e deita fora uma personagem. Como se destrói uma eventual e legítima aspiração a uma liderança, em requintadas cascas de banana, no folclore mediático e miserável da política partidária. Porque a partidarite alimenta-se de pequenos egos, de pequenas intrigas, e com factos menores ou bem urdidos se assassina, numa penada, a lisura de homens impolutos, numa condenação eficaz e imediata, cuja veracidade não se questiona. E alguma comunicação social descaradamente arregimentada, e os blogues ostensivamente conotados, são veículos poderosos na estratégia de descarte ou assassinato político.

Preocupante é que esta descartabilidade se estenda àquilo que deveria ser a máquina estável, profissionalizada e competente da administração do Estado, o que só pode ser entendido por uma qualquer razão patológica, por uma total ausência de princípios éticos ou de responsabilidade na gestão da res publica ou, quem sabe, um prenúncio do fim do mundo.

Os mandatos públicos têm a duração de três ou quatro anos e é legítimo que quem é deles incumbido tenha a convicta aspiração que é esse o tempo que durará a sua tarefa, até porque esse é o universo temporal mínimo para que se possa apresentar um trabalho com alguma consistência e frutificação. Espanta-me, também numa visão filosófica de interrogação sobre o mundo e a vida, que em épocas de estabilidade maioritária, haja áreas das funções essenciais do estado social onde ainda não houve uma alma, e algumas de muito valor, que perfizesse os tais três, quatro anos na cadeira, sendo sucessivamente descartada, ou para outro lugar igualmente descartável, numa insólita dança de cadeiras, ou simplesmente relegada para o cesto dos papéis, aparentemente esquecida a razão que a levou ao lugar.

Nesta descartabilidade voraz e temerária, quando o descartável começou finalmente a aprender o ofício e o que lá deve fazer, que muitas vezes desconhecia, já está de mala na porta para dar lugar a um novo descartado que vai iniciar, orgulhoso, o tirocínio de riscar no que não sabe, numa espécie de ave Caesar morituri te salutant.

Nalguns casos, é compreensível que seja igual ao litro ser o descartável A ou B a exercer o lugar, porque estes supostos agentes de comando não vão mandar nada, limitando-se a cumprir os desígnios ou ordens de quem sabe e, por razões laterais, não quer exercer o lugar.

Problemático é quando a qualidade do descartável, de astuto biscateiro, procura impor-se levianamente num contexto que não conhece, nem domina, o que obriga ao seu descarte imediato, para contenção de danos.

As instituições precisam de estabilidade, profissionalismo e competência para exercer cabalmente a sua função instrumental de servir o interesse público.

E nestes novos tempos ninguém está a salvo de descarte, por mais seguro ou alto que possa parecer o seu poiso. Basta que um qualquer alto ou baixo valor se levante.