O lugar de uma mulher é onde ela quiser

"Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem. Lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaraterize."
Boaventura de Souza Santos

Simone Weil defendia que a "Igualdade é o reconhecimento público, efetivamente expresso em instituições e modos, do princípio de que um grau igual de atenção é devido às necessidades de todos os seres humanos".

A igualdade (de direitos, de género, e de oportunidades) é um princípio essencial da democracia que não deve ser menorizado por ter mulheres como precursoras da mudança de mentalidades que ainda está por cumprir.

O que se espera de uma sociedade desenvolvida é que seja capaz de consagrar uma igualdade que reconhece as diferenças e que dessa diferença não reproduza desigualdades. Mas a realidade não é essa. A realidade demonstra que, tendencialmente, as mulheres abdicam mais do tempo para si próprias do que os homens – exemplo prático: quando uma mulher está de folga, limpa a casa, arruma, prepara tudo para a semana seguinte ("há sempre alguma coisa para fazer!"); quando um homem está de folga... está mesmo de folga.

Os estudos mais recentes sobre o impacto das desigualdades em Portugal concluem que são ainda muitas as mulheres que consideram aceitável haver uma divisão de tarefas domésticas distinta em relação ao companheiro. Não é. Nem deve ser encarado como "aceitável" por ninguém. Este tipo de anuência relativamente ao que continua a ser esperado das mulheres ou dos homens em contexto familiar demonstra que existe uma perceção muito ténue da injustiça que norteia a desigualdade de género. Tal como a questão da maternidade.

Dizem que as mulheres portuguesas são "culturalmente mais orientadas para a maternidade" do que a generalidade das mulheres europeias. Orientação assente num desequilíbrio assoberbante no que diz respeito à divisão das tarefas em contexto familiar, que se torna ainda maior quando há filhos no casal (salvo honrosas exceções).

Não só existem desequilíbrios na divisão de tarefas em contexto familiar como existe um atroz preconceito em relação às mulheres que decidem não ter filhos. Sim, há mulheres que não querem ser mães – e daí? Não há nada de errado nisso. O que é errado é o que a nossa sociedade pretende transmitir a estas mulheres – um peso incomensuravelmente alicerçado em puro preconceito, quase como se estas mulheres fossem más pessoas por não quererem ter filhos. Não será mais reprovável ter filhos e abandoná-los à sua sorte?...

Voltemos à questão da desigualdade. Estudos demonstram que, em média, quando marido e mulher exercem uma atividade profissional, os filhos e as tarefas domésticas exigem cerca quatro horas a mais por dia para as mulheres e cerca de duas horas a mais por dia para os homens. Agora, faça as contas para aqueles que também cuidam dos pais.

Apesar de ser já uma realidade que as mulheres estão a assumir que o seu companheiro deve participar nas tarefas em contexto familiar (seja com os filhos, seja nas lides domésticas), e que começam a valorizar a sua participação ativa no mercado laboral, o caminho para a igualdade continua a parecer demasiado longo.

Ainda assim, cabe-nos a todos lutar por um futuro melhor. Qualquer que seja o futuro pelo qual lutamos, deve ser sempre um futuro baseado na igualdade, no respeito pelo próximo e, mais importante ainda, no respeito por nós próprios.

Dito isto, independentemente do grau de preconceito que a sociedade possa demonstrar, lembre-se que o lugar de uma mulher é onde ela quiser. Só depende de si.