(Não é) Desonestidade?

Em 2017, o país inteiro chorou com os incêndios de Pedrógão Grande.

Foi o maior incêndio florestal e o mais mortífero de sempre em Portugal e o 11º incêndio mais mortífero a nível mundial, desde 1900.

Contabilizaram-se mais de 60 mortos e 200 feridos, encontrados em cenários arrasadores.

Mais de 500 casas foram parcial ou totalmente destruídas pelo fogo. Quase 50 empresas foram afetadas e mais de 300 postos de trabalhos também.

Houve gente acusada de dezenas de crimes de homicídio por negligência e de ofensa à integridade física por negligência, irregularidades no apoio à reconstrução de casas e um sem número de polémicas que metiam o Governo da Gerigonça ao barulho.

Na altura, Catarina Martins (sim, a do Bloco de Esquerda) pediu chuva. Repito, para que não se esqueça, pediu chuva.

Trauteou que era preciso apurar-se responsabilidades e investir no interior. Disse, inclusive, que "precisamos menos de atira-culpas e menos passa-culpas" e mais "de um sistema de proteção e segurança das nossas populações".

Antes, em 2015, os bloquistas acusaram o Governo do PSD de incompetência e reiteraram que a meteorologia não podia ser justificação. Disseram que era preciso ter um dispositivo no terreno que prevenisse tragédias e minorasse fatores de risco.

Hoje, a Austrália arde e o mundo chora.

Preocupamo-nos, todos e todas, com as mais de vinte pessoas e os milhões de animais mortos. E com as casas ardidas, o património perdido e a diversidade da fauna e flora que se perdem a cada hora.

O mundo uniu-se na dor da tragédia tal como, em 2017, Portugal se uniu para chorar os mortos e ajudar os vivos.

Mas hoje, a mesma Catarina Martins e o mesmo Bloco de Esquerda, a que pediu chuva e o partido que acusou o Governo do PSD de incompetência, são os mesmos que dizem que, na Austrália, aquilo a que assistimos “não é fogo, é o capitalismo”.

E, perante tal declaração, assola-me a dúvida: (não) é desonestidade?

Que gente é esta que se contradiz todos os anos, que põe incompetência e meteorologia no mesmo barulho e que se esquece que esteve metida no Governo que enfrentou o maior incêndio florestal de sempre? Que gente é esta que, num dia, aponta o dedo e, no outro, é capaz de defender o indefensável? Que gente é esta que pede chuva quando dá jeito e que chama capitalismo ao que lhe apetece?

Não é uma anedota. É a Catarina e o Bloco.