E antes que passe, não nos esqueçamos de dizer Obrigada!

Há amor e Amor. Isto porque o amor não é todo ele igual. Pelo menos na sua intensidade. E há um Amor especial e único. Foi esse que sempre vi nos meus pais. Não o amor de quem um dia se apaixonou e se afeiçoou àquela pessoa, mas um Amor que mantém alguém apaixonado e constantemente preocupado com o outro. Por anos e anos. Até à morte e depois da morte. Aquele Amor que ainda pressinto na minha mãe 13 anos depois de o meu pai ter partido.

É difícil explicar a dimensão desse amor, mas ele tem vida própria, manifesta-se nas expressões, nas palavras, nas memórias que são partilhadas. Posso dizer que conheço muitos amores entre casais, mas conheço poucos como aquele que me acompanhou na minha infância e parte da minha vida adulta.

E que ainda me acompanha, de uma outra forma, depois da morte do meu pai.

Muitos casais perdem, com a morte, maridos e esposas, a minha mãe 'perdeu' o amor da sua vida, a "luz" dos seus olhos, como lhe costuma dizer no desassossego de o ver sair para mais um dia de trabalho.

E se nos seus olhos continuo a ver esse Amor, também vejo aquela tristeza profunda de não o ter fisicamente junto de si. De acordar e não ter essa pessoa ao lado, de se deitar numa cama vazia e voltar a enfrentar mais um dia com essa ausência. Imagine-se passar anos e anos e continuar a viver à sombra desse Amor e sobreviver por ele. Se isso não é ser uma heroína, não sei o que será.

Neste mundo em que se escolhe heróis à pressa, por vezes esquecemo-nos dos pequenos heróis e heroínas que todos temos nas nossas vidas. Aqueles que perderam alguém que amam, seja cônjuge, filhos ou outros, aqueles que travam batalhas contra terríveis doenças e provações. Aqueles que tudo fazem para levar um pouco do pouco que têm aos outros. São esses heróis e heroínas que precisam e devem ser exaltados, acarinhados e homenageados.

Hoje, quero, por isso, dizer que a minha heroína é a minha mãe. Por aquilo que tem sofrido, mas também por me ter agarrado à vida por duas vezes. A primeira quando "me deu à luz", a segunda quando, ainda sem noção dos perigos, atirei-me da 'sacada' abaixo e ela, milagrosamente, conseguiu apanhar-me antes de me estatelar no chão. Esse podia ter sido o fim de uma vida muito curta e só não o foi porque ela estava ali para me salvar.

Como esteve sempre em todos os momentos da minha vida.

Infelizmente, crescemos, tornamo-nos adultos e, muitas vezes (nem sempre) só nos apercebemos, verdadeiramente, dos sacrifícios que os nossos pais fizeram e fazem quando também nos tornamos pais. Assumimos como parte integrante do papel de ser pai ou mãe tudo aquilo que nos é dado por eles, de forma material ou imaterial, e nem sempre nos lembramos de agradecer. Porque estamos demasiado ocupados em construir as nossas vidas, os nossos pequenos impérios e quando paramos para olhar à volta já tanta coisa passou por nós.

 

Sílvia Ornelas escreve à terça-feira, de 4 em 4 semanas