Nada que uma bebedeira não ajude a passar

Entramos naquela época fantástica, poncha, bolos de mel, carne de vinho alhos, confusões identitárias, filosóficas e espirituais, ressacas e adeus às dietas. As luzes já estão acesas, as barracas (apesar das barracadas) no sítio, o povo ri e fica feliz pelo cheiro da tangerina.


Começa as missas do parto e a festa entra com força, como um bebé a sair do útero da mãe, ao fim e ao cabo é isso que, supostamente, festejamos, e não paramos até à entrada do novo ano, e com jeitinho, é sempre preciso um jeitinho, prolongamos até aos Reis, na realidade dura um ano inteiro mas para agora fiquemos com o que temos mais perto.
A azáfama das prendas já começou, não bastava o Natal ser a típica altura capitalista tivemos de ‘adotar’ uma tradição da nação que é o bastião do capitalismo. A ‘black friday’ transforma-se em ‘cyber monday’ e os centros comerciais transformam-se em plenos centros nevrálgicos em que a febre do consumo percorre os corredores e que só termina lá para depois do ano novo, pois, entretanto, entra a época das trocas das prendas e os saldos.
E todos os anos continuamos a festejar algo que se transformou igualmente na celebração orgial do consumismo, do despesismo, mas que ainda guarda, talvez na sua essência, o culto da família e da amizade, nem que seja nos jantares que somos obrigados a participar, mas que a bebedeira ajuda a passar.

Outra vez eleições? 
Escrevo-vos numa altura de incerteza da Câmara Municipal do Funchal (CMF). Por razões de logística esta crónica não acompanhará o desenrolar da sessão plenária sobre a votação do orçamento para o ano civil 2020, orçamento esse que seria, supostamente, pois mais uma vez não sei como é que irá acabar, o maior em algum tempo de governação camarária. Efeitos práticos do chumbo do mesmo? O orçamento para 2020 será igual ao deste ano, que agora finda, os funchalenses e madeirenses, terão a certeza que existe, de facto, uma guerra instalada entre Quinta Vigia e Largo Colégio, para além da barraca das barracas – que até certo ponto leva a questionar se estamos a entrar num regime antigo do “quero, posso e mando”, em que extrapola a guerra partidária entre PSD e PS. Poderá, na pior das hipóteses, a eleições antecipadas para o município funchalense, já estou cansado de eleições.
Entretanto o que podemos verificar é que o CDS conseguiu um feito inédito, em 2 meses foi absorvido pelo PSD.

Earl Sweetshirt – Feets of Clay,
Um EP e um Poema 
Apresento-vos algo ligeiramente fora do formato habitual, o álbum, um EP. O que é um EP, é um conjunto de canções que não são as suficientes para formarem um álbum e que são mais que as típicas duas, que formam um single.

Feets of Clay, lançado no início do mês de novembro, é o segundo EP do prodígio do Hip-Hop, Earl Sweetshirt, que desde de cedo mostrou um tato para a rima que não era algo habitual para alguém da sua idade. Após os conceituados, “I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside” e “Some Rap Songs”, Thebe Kgositsile, nome de batismo de Earl, regressa com os seus poemas num EP maioritariamente produzido pelo mesmo e que o elava-o para um patamar singular no mundo do hip-hop.

Segundo Earl o mesmo foi escrito através “observações e sentimentos gravados durante a morte dolorosa de um império em queda”, é fácil entender qual é o império em queda. Mas as letras em si dão azo a várias interpretações, salientando a qualidade lírica que Earl facilmente transmite mostrando que para além de rapper é também um poeta.

 

Eduardo Azevedo escreve à terça-feira, todas as semanas