A palavra política

Na última semana de novembro o GATO, Grupo Amigos do Teatro, deu-nos a oportunidade de revisitarmos a obra de George Orwell, “O triunfo dos porcos”. 

Foi muito profundo ver a forma como adultos e crianças trabalharam o texto e nos recordaram como o poder pode corromper, apesar de uma pretensa preocupação em instituir mecanismos que possam evitar derivas desse género. No palco do Baltazar Dias ficaram claros vários papéis:

– dirigentes visionários e carismáticos que conseguem incentivar a construção de uma utopia em que cada um é chamado a dar o melhor de si;

– líderes déspotas que se servem dos ideais dos outros para seu próprio benefício, afirmando sempre que o que fazem é para o bem de toda a comunidade e ameaçando quem não pensa do mesmo modo;

– os que escolhem o barulho e a pressão, para abafarem a voz de quem começa a querer colocar em causa a ordem instituída;

– os que preferem manter-se na ignorância para não terem o trabalho de procurar informação, não colocando em causa o que lhes dizem, mas percebendo a deturpação dos valores iniciais;

– os que fazem o jogo do poder, para terem benefícios;

– os que preferem não se envolver em nada, pois assim vivem muito e não são prejudicados.

Se compararmos com a realidade de hoje, reconhecemos todas estas posturas e percebemos como o que cada um de nós faz ou não faz tem consequências na construção da sociedade em que vivemos.

Uma das sessões que fez parte do trabalho que o GATO quis construir à volta desta peça foi refletir sobre “A palavra política (ou a política da palavra)”. Tendo sido uma das participantes nessa sessão, preferi refletir sobre como a palavra política tem caído no descrédito, fazendo com que ninguém acredite no que afirma ou promete quem se candidata a um cargo político. As pessoas apercebem-se de que há uma enorme discrepância entre o que os candidatos dizem e o que fazem. Veja-se o caso recente da usurpação da Placa Central ao Município do Funchal pelo governo do PSD/CDS. Após uma narrativa exacerbada contra o governo central, acusando-o de interferir negativamente na autonomia e na democracia da Madeira, não existiu o mínimo pejo desse mesmo governo regional laranja e azul em usurpar a propriedade e as competências do poder local. Atente-se ainda no que esses mesmos dois partidos têm feito para colocarem amigos em cargos e nas administrações de empresas públicas, num saque descarado e de quem se sente impune.

A ausência de tomada de posição da população ou a apatia de pessoas e instituições perante estes desvios à democracia são igualmente tomadas de posição tão ou mais importantes do que a luta pura e dura. Será que as palavras estão podres, como escreveu Jorge de Sena? “Estão podres as palavras – de passarem/por sórdidas mentiras de canalhas/que as usam ao revés como o carácter deles./E podres de sonâmbulos os povos/ante a maldade à solta de que vivem/a paz quotidiana da injustiça. (…)”

A democracia constrói-se com cada um ou uma de nós. Se a queremos, temos de lutar por ela.

 

Nota: Madalena Nunes escreve
à terça-feira, de 4 em 4 semanas