Obrigado cegonha!

Hoje é praticamente inimaginável uma vida sem telefones.

Com eles o acesso ao mundo na palma da mão, à distância de uma dedada. São inebriantes os ‘likes’, os ‘comentários’ e tudo o mais que o pacote oferece. Naquela mega rede, que para alguns é quase uma dupla vida, proliferam gente de todas as espécies e feitios, seguros atrás de um teclado onde dizem tudo e mais alguma coisa. Mas já alguma vez imaginaram que a vossa vida, como a conhecem, pudesse levar-vos a situações extremas, simplesmente por emitirem as vossas opiniões, andarem nas redes sociais ou omitirem comportamentos determinados como essenciais para a vida em determinadas sociedades?

A Amnistia Internacional, a organização não governamental que defende os direitos dos homens, criou em tempos uma aplicação chamada "Trial By Timeline" que revela, através de uma análise automática da minha/vossa conta de Facebook, quantas vezes, com quais punições, em que crimes e países você seria acusado, perseguido e/ou condenado pelos mais absurdos motivos. Por exemplo, há locais no mundo em que uma pessoa seria punida simplesmente por ter uma conta em uma rede social...

Evidentemente decidi experimentar na própria pele (versão digital, evidentemente), a ver o que saía dali…

Associando o "Trial By Timeline" ao meu perfil no facebook e após apurada "investigação", descobri que em diversos países deste mundo, eu sofreria severas penalidades – em alguns sítios ‘apenas’ por exercer “equivocadamente” a minha liberdade de expressão. Noutras regiões o simples facto de não declarar a minha religião publicamente já seria motivo para tortura, prisão ou perseguição.

Assim sendo, vamos às contas: apenas pelo meu perfil no facebook (os meus likes, apoios, etc.), eu seria espancado 22 vezes (na India e Paquistão; na primeira por apoiar a Amnistia Internacional, no segundo apenas por ser cristão). Seria torturado por 17 vezes (na Arábia Saudita, Afeganistão e Síria, por ser cristão, por defender os direitos humanos e por não divulgar abertamente a minha religião; e em Myanmar, simplesmente por ter uma conta no Facebook); seria preso 53 vezes (mais uma vez, Arábia Saudita, Afeganistão e Myanmar, pelas razões anteriores; e no México, por defender os direitos humanos); seria chicoteado uma vez na Arábia Saudita; já teria sido alvo por 26 vezes de atentados levados a cabo por extremistas na Rússia, e mais uma vez por defender direitos humanos; e teria sido perseguido 44 vezes, novamente pela cena dos direitos humanos e por ser cristão, na Serra Leoa e em Laos. E decididamente Arábia Saudita não é um lugar recomendado para mim...

Portanto, e resumindo, a minha conta no Facebook levaria a que fosse perseguido, preso, chicoteado, espancado, torturado e vítima de atentados contra a minha vida! E mais que uma vez!! Apesar das 88 condenações por 4 crimes em 46 países, ainda não sou assim tão mau: escapei de ser enforcado, morto por injecção letal, apedrejado até à morte, morto a tiro (se bem que os atentados ajudariam nesta estatística) e não fui decapitado em país algum! Vá lá! A cabeça fica.

Inevitavelmente este pequeno exercício de ‘sairmos da nossa redoma’, tendo em consideração o padrão da vida ocidental moderna (dos smartphones, tablets, das redes sociais, das relações-bala), leva-nos a pensar que raio de mundo é este, onde a vida de uma pessoa, e particularmente a duração desta, depende do lugar onde a 'cegonha' nos larga…

 

Luís Miguel Rosa escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas