Anos depois, ainda marcha

Para quem vive ou passa pela cidade parece um regresso ao passado. Machico virou, de novo, um estaleiro de obras públicas.

Pensará o leitor que a Câmara socialista acordou agora, depois de seis anos de sonolenta governação e começou a escavacar toda a cidade? Nada disso. Essa inoperância continua. Mas, em política, também há coisas fantásticas. A Câmara continua de braços cruzados e as obras que estão no terreno são ainda resultado do trabalho do PSD que já saiu do executivo em 2013. Não acredita!? Incrível! Então vamos por partes.

No último mandato de maioria PSD, a Câmara de Machico decidiu aderir à empresa Águas e Resíduos da Madeira (ARM). As justificações para tal decisão foram de variada ordem, sendo a principal razão a incapacidade financeira da Câmara para proceder à recuperação de toda a rede de distribuição que se encontrava com perdas superiores a setenta por cento da água aduzida no sistema. Eram precisos milhões. A solução foi uma candidatura a fundos europeus para melhoramento da rede regional, através da nova empresa. Na altura o inenarrável deputado Coelho exibia em frente do edifício camarário um cartaz a chamar de ladrão ao então presidente da Câmara, porque este “roubara” a água aos machiqueiros para entregar ao Governo. O PS local, na oposição, pegou na isca e a partir daí tratava a ARM por “Águas Roubadas a Machico” e garantiu que se ganhasse as eleições ia reverter a situação.

Os anos passaram. O PS ganhou as eleições e perante a questão o atual presidente fez-se de desentendido. Ora ia realizar um referendo. Ora tinha falado com umas pessoas que aconselhavam a nada fazer. Ora o problema era a devolução dos sete milhões que a Câmara encaixou no negócio com a ARM. Isso mesmo, os sete milhões que foram abatidos à dívida e que o PS diz que foram eles que pagaram. Pronto. A questão ficou por ali. Houve choradinhos na comunicação social amiga. Houve desculpas e mais desresponsabilizações e Machico foi caindo, outra vez, pela mão amiga dos socialistas, naquele marasmo que só incomoda algumas almas irrequietas e verdadeiramente interessadas no desenvolvimento e competitividade do concelho.

Mas, voltemos às obras, às ruas escavacadas e à recuperação de toda a rede de distribuição de água potável. Entretanto lembre-se que a atual rede, velha de quarenta anos, foi também obra de uma câmara PSD, o que na altura revolucionou o quotidiano da população que vivera séculos rodeada de mar, dividida entre caudalosas, e por vezes diluviais, ribeiras, mas à míngua de água no domicílio. Esta profunda renovação vai custar milhões, vai fazer poupar mais de metade da água aduzida no sistema, vai por isso ser amiga do ambiente, vai resolver por muitos anos uma das necessidades básicas da população, sendo também uma das obrigações da Câmara Municipal. Tudo isto feito sem que o atual executivo mexa uma palha. O trabalho já foi feito por outros anteriormente. Não é fantástico!? Para além de se verem livres da trabalheira, confusões e complicações inerentes à gestão dum sector tão complexo e fundamental no quotidiano da população, veem resolvido, sem custos, o problema do investimento de milhões de euros em equipamentos que, de uma ou outra forma, serão sempre património local. Mas, ainda bem que, no passado, alguém pôs Machico em marcha, e ainda mexe.

 

Emanuel Gomes escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas