Mais Humanidade, menos Burocracia

A burocracia, segundo os termos do seu grande arquiteto, Max Weber, visa promover o «desencantamento» – um processo de racionalização que extrai do nosso mundo as formas de magia, misticismo e explicação tradicional.

Ela foi erigida enquanto projeto moral, representando uma forma de estruturação social mais justa que a consagrada nas formas de autoridade anteriores. Paradoxalmente, o princípio da justiça onde o respeito pela regra e pela lei significam um tratamento igual para todos, independentemente das suas características sociais, tem como contraparte a subtração do fator humano.

Ora, neste mundo de normas e regulamentos, quem detém poder são os peritos. Os detentores de conhecimentos cada vez mais especializados e abstratos sobre esferas distintas da vida social. Contudo, os mesmos lidam com os assuntos de forma separada da experiência das pessoas. O gosto excessivo pela normalização de formas de pensar e agir acaba por retirar a legitimidade dos indivíduos e transita-a para o sistema. Deste modo, transforma os seres humanos em autómatos, dilacerando a criatividade e a capacidade de mudança e tornando-nos, em última instância, seres medíocres.

O contrapeso para esta burocracia kafkiana dos tempos modernos poderá estar na promoção, por parte das instituições e dos seus líderes, de mais humanidade. Como dizia Max de Pree, «a primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A segunda é dizer obrigado. Entre as duas, o líder deve ser um servidor e um devedor». Semear a humanidade não significa encarar a vida como um paraíso celestial, nem tampouco promover a sentimentalidade lamurienta. Significa antes respeitar as pessoas e reconhecer-lhes o direito à liberdade, à dignidade, à autoestima e à felicidade. Representa ainda a capacidade para ajudar, confortar e aceitar o outro, e para com ele desenvolver relacionamentos positivos.

Socorrendo-se de Jeffrey Pfeffer, segue-se um conjunto de axiomas que poderão ajudar a promover esta humanidade tão necessária: a) deixem de ir aos bolsos dos colaboradores; b) concedam-lhes benefícios que lhes permitam concentrarem-se no trabalho para não se dispersarem com preocupações de sobrevivência e saúde, pois são pessoas, não equipamentos controláveis; c) deixem de os espiar e de tratá-los como crianças irresponsáveis, pois assim é provável que se comportem como tal ou que abandonem a organização; d) criem condições e tempo para que eles fruam vida pessoal e familiar. Se lhes sugarem todo o tempo, eles acabarão por encontrar estratagemas para tratar de assuntos pessoais ou familiares inadiáveis (e.g., baixas fraudulentas).

Concludentemente, podemos fazer uma analogia entre as preocupações com a sustentabilidade ambiental e as práticas sustentáveis de gestão de pessoas. O modo como as organizações gerem os colaboradores tem enormes implicações na sua saúde, pelo que devem ser responsabilizadas por práticas humanamente poluentes. Tal como ocorre com a poluição ambiental, as organizações que descuidam a saúde dos colaboradores para reduzirem custos acabam por impor externalidades que os contribuintes pagam (e.g., financiando o sistema nacional de saúde que trata as maleitas geradas por organizações socialmente irresponsáveis). Por conseguinte essas organizações devem ser chamadas a suportar os custos.

Como dizia Stephen Covey, «se a escada não tiver encostada na parede certa, cada degrau que subimos vai nos levar mais rapidamente ao lugar errado».