Eu tenho um lugar

[…] Levo comigo uma origem e um destino… escreveu José Luís Peixoto, levando-me de imediato para a casa da minha avó [que era também a casa do meu avô] e para um tempo conjugado só no incondicional, porque aconchego, brandura e condescendência.

Julgo que todos nós guardamos cá dentro, algures, reminiscências dos momentos e dos recantos onde crescemos soltos, até rebeldes, mas amparados.

Da casa da minha avó e além dos pastores alemães, da fazenda, do canavial e do forno a lenha [não sei se conseguem imaginar o potencial de uma parede cheia de lenha apinhada], retenho pedaços de mim, ora cheiros, ora sabores, ora sonoridades. Enumerá-los a todos seria deitar contas a uma vida, já quase perto da metade. Ficará para outra ocasião.

Por ora, apetece-me apenas recordar os momentos em que nos sentávamos à mesa, com o meu avô à cabeceira e que, de acordo com um protocolo contra ao qual eu insistentemente me rebelava, era sempre o primeiro a ser servido. Estávamos, nós, as crianças “esgamuadas”, mas era sempre o César a receber o primeiro prato de comida.

Jamais me recompus de tamanha injustiça e tenho mesmo que confessar que, aproveitando uma nesga de distração e fazendo vingar a minha condição um tanto ao quanto feminista e defensora dos pobres e dos oprimidos, roubava-lhe o prato e sem qualquer cerimónia começava a comer. Não pensem, porém, que o meu avô se deixava vencer pela petulância da gasguita. Cá nada!

A vingança dava-se ao Domingo de manhã. Enquanto eu a minha avó íamos à missa, o meu avô preguiçava na cama e, levantando-se com vagar, acendia o fogão e começava a preparar as suas papas de Maizena [com gema de ovo], evidenciando dotes aparentemente não expectáveis. Assegurando-se da consistência perfeita e sobretudo da ausência de gomos, o meu avô desligava o fogão, tapava a panelinha com uma toalha e ia tomar banho.

Depois de lavado e já vestido, o meu avô regressava à cozinha. Sentada no lugar dele, estava eu, rapando a panelinha e saboreando as melhores papas de aveia do mundo, as do César.