O outro do outro é você!

“A descoberta de outros é a descoberta de um relacionamento, não de uma barreira!"

Claude Lévi-Strauss

1 - Edward B. Tylor definiu cultura como sendo "todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade".

É, portanto, a marca distintiva de um grupo, de um povo ou de uma nação. A definição de Tylor, apesar de revista por diversas vezes, é consensual relativamente à definição de cultura ao nível das ciências sociais.

Cultura é, portanto, tudo o que é construção humana, que identifica; é a identidade própria de um grupo humano inserido num território, num determinado período histórico. É, no fundo, a circunstância de que fala Ortega y Gasset.

Mas as características identitárias de um determinado povo são exatamente as marcas diferenciadoras entre os povos. Ou seja, o que identifica um determinado povo é o que o distingue dos demais.

Hoje em dia, fruto da globalização, as sociedades são cada vez mais multiculturais. O multiculturalismo está em todos os lados: no nosso país, nas nossas cidades, nos nossos bairros e até nos nossos microcosmos, como nas escolas e lares.

Gostemos ou não, estas são as sociedades contemporâneas e é nelas que temos de viver. Por isso, é bom que nos esforcemos para deixar para trás os preconceitos, as ideias feitas, os medos. Temos de estabelecer pontes de amizade, de compreensão, de diálogo para que as sociedades multiculturais passem a ser verdadeiramente sociedades interculturais, onde é possível a convivência, respeitando as diferenças e compreendendo que é essa diferença que realmente caracteriza a nossa identidade enquanto espécie. Mais, que essa diferença é uma riqueza imensa!

2 - A humanidade cresceu e fez-se global e heterogénea devido ao fenómeno das migrações.

Quer isto dizer que sem migrações não teríamos humanidade, porque falharia a diversidade genética fundamental à perpetuação das espécies.

Como nos ensinou o Papa Francisco, as migrações marcam profundamente todas as épocas e favorecem o encontro dos povos e o nascimento de novas civilizações.

Portugal é uma nação de migrações. O nosso povo nasceu deste encontro de povos e civilizações: Celtas, Iberos, Lusitanos, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Suevos, Visigodos, Muçulmanos, Judeus foram alguns dos povos que se estabeleceram na Península Ibérica e que nos emprestaram alguma da sua herança genética e cultural.

Por outro lado, Portugal foi verdadeiramente o primeiro país a estabelecer um mundo global, com o processo das descobertas, o que impulsionou um movimento migratório ímpar na história da humanidade, tendo envolvido quatro continentes, algo inédito até então.

A Madeira foi um eixo e um pilar fundamental neste processo de globalização. E por isso, a sociedade madeirense é fruto de um caldo de culturas. Esta miscelânea genética e cultural decorre também do facto da Madeira, quase desde o início do povoamento, ter começado a ser um porto emissor de emigrantes. E se o sangue, a nossa herança genética, já era muito diversa, com estas migrações mais se diversificou, fruto de casamentos e descendências geradas a partir de outras nacionalidades. Por isso, costumo dizer que se é um paradoxo um português ser xenófobo, ainda o é mais se o xenófobo foi um madeirense. Nós, que facilmente passamos por judeus em Israel, ou por muçulmanos na península arábica.

Ora, por termos contribuído para um mundo global, por sermos uma sociedade multicultural, pelo facto do nosso sangue ser profundamente mestiçado; por termos conterrâneos nos 4 cantos do mundo, temos a dever de acolher a diferença e reconhecê-la como uma riqueza. O Outro dá-nos mais do que tira e em relação, somos mais e melhores. Pense nisso, da próxima vez que lhe apetecer desconsiderar alguém, pela simples razão dessa pessoa ser diferente de si. E não se esqueça de que você também é diferente dele. Ele hoje é o Outro. Amanhã, o Outro é você!