A caminho do Natal

A forma de celebrar o Natal foi-se alterando com o tempo.

Na minha terra de origem (Santana) ainda assim existem alguns usos e costumes que se mantêm, mas muitos foram vencidos pelo tempo.

É certo que o mês de Dezembro ainda é o mês da “festa” e muito do dia-a-dia é realizado em função do Natal.

No início do mês em muitas casas começa a azáfama, para preparar a “lapinha”, as broas a morte do porco e os ensaios para as romagens que vão sair na noite de Natal.

Na minha infância e adolescência eram tempos de magia pura. Contávamos os dias para chegar ao dia da “festa”.

Uma das primeiras actividades tinha a ver com a “função do porco”.

A matança do porco era um fim-de-semana de festa.
Lá em casa na semana anterior, sobretudo a minha mãe começava a preparar tudo para esse momento.
Recordo-me de ter de ajudar a lavar os terreiros, preparar os salgueiros, as púcaras para a banha e outras tarefas.

Havia também um dia para amassar o pão e cozer o inhame.

Este tubérculo, tal como muita gente ainda hoje faz, levava 24 horas no lar sempre com lume brando e lenha controlada.

O inhame era lavado e cozido com casca dentro de uma grande panela de ferro. Era coberto com um pano de saca. Ficava apenas uma pequena abertura para ir acrescentando água e controlando o sabor com mais ou menos sal.

A matança do porco era por assim dizer o assinalar do arranque das festividades.

Logo depois vinha o tempo de outras limpezas, das broas dos bolos e dos bolos de mel. Era tudo feito lá em casa e no forno a lenha. Amassar não era comigo nem com os meus irmãos, mas fazer as bolinhas que depois iriam se transformar em broas, isso já era uma tarefa para a qual éramos chamados. Provar ainda quentes também era nossa especialidade.

Mais próximo da “festa” havia que preparar a “lapinha”.
Usávamos papel pintado e muito material natural recolhido na zona: o musgo, as cabrinhas o azevinho o alegra-campo, etc.
No presépio acrescentávamos as “cearinhas” previamente preparadas também com trigo lá de casa.
A par do que se preparava em casa, havia a parte religiosa associada. Era o tempo das missas do parto embora sem o fulgor e algum folclore associado nos dias de hoje.

Recordo-me dos preparativos para as romagens representativas de vários sítios que na Noite de Natal entoavam cânticos e levavam várias oferendas em direcção ao altar.

Com alguns dias de antecedência, era preciso criar uma letra, uma música e voluntários de cada sítio que ensaiavam diversas vezes para apresentar uma cantoria devidamente afinada. Na altura gozava-se que se não batesse certo, se alguém desafinasse “dava arroz”.