Serviços de saúde para imigrantes – modelo canadiano

O Canadá é o segundo maior país do mundo em extensão territorial, com uma população total de 34 milhões de habitantes. Destes, estima-se que 1 em cada 5 são imigrantes, oriundos de várias proveniências, que após alguns anos de residência permanente, tornam-se cidadãos canadianos. É, pois, uma nação multicultural, que valoriza e promove a diversidade.

Dada a relevância económica, social e cultural da imigração no Canadá, o bem-estar dos migrantes, avaliado regularmente, é um pilar fundamental para o sucesso da nação. Um estudo longitudinal realizado pelo governo canadiano revelou que 29% dos imigrantes apresentavam problemas emocionais, e que 16% demonstravam níveis elevados de stress. É sabido que os migrantes recém-chegados enfrentam múltiplos desafios na adaptação à nova vida no país de acolhimento. As maiores dificuldades incluem mudanças na sua identidade profissional, discriminação, desemprego, barreiras linguísticas e falta de rede de suporte social (família e amigos). Estes fatores de risco são considerados determinantes sociais e económicos da saúde mental.

Tendo em conta que a entrada (imigração) e a integração na sociedade canadiana são processos complexos e fatigantes, a saúde mental dos imigrantes tem sido uma prioridade na estratégia de saúde mental do governo do Canadá. Assim, existem diversos programas já implementados, promotores de políticas de proximidade, cujos objetivos incluem:

- Oferta de serviços de saúde mental culturalmente sensíveis e competentes, constituídos por equipas multidisciplinares cujos profissionais oferecem serviços na língua materna das principais comunidades de imigrantes, e que estão preparados para lidar com diferentes códigos culturais e de conduta para uma mesma situação;

- Remoção das barreiras no acesso e utilização dos cuidados de saúde mental: promovendo a colaboração estreita entre instituições sediadas na comunidade, dedicadas aos estrangeiros, e os principais serviços de saúde mental públicos. Estes centros comunitários fazem a triagem das necessidades e prioridades locais, e ajudam na identificação das principais barreiras ao acesso aos cuidados de saúde;

- Produção de material informativo (sinalética, panfletos, página da internet) em várias línguas, para facilitar o acesso e aumentar a literacia dos utentes de várias nacionalidades. De salientar, que estas estratégias de comunicação intercultural são uma necessidade, num país em que 20% da população é imigrante.

O Toronto Western Hospital (TWH) é um exemplo de uma instituição canadiana que presta serviços de saúde mental multicultural. No 9º e último andar do edifício existem três serviços de saúde mental independentes (português, espanhol e asiático), constituídos por equipas distintas, todas culturalmente preparadas e competentes para a população a que se destinam.

Tive a curiosidade de conhecer e a oportunidade de realizar um estágio de observação no serviço português. É liderado pela única médica psiquiatra, a Dra. Mónica Scalco, oriunda do Brasil, e a única profissional remunerada pelo Hospital. Os restantes membros da equipa multidisciplinar falavam português (eram portugueses ou brasileiros), e os seus salários eram financiados pelos programas governamentais de apoio à saúde mental dos imigrantes. Os imigrantes eram referenciados pelos médicos de família, serviços de urgência e centros comunitários. No caso de estarem ilegais (indocumentados e sem seguro de saúde) eram igualmente assistidos, ao abrigo dos programas humanitários.

Este é um exemplo de modelo de “saúde amiga dos imigrantes”, que poderia ser replicado na Madeira, terra natal e de acolhimento de sete mil emigrantes e luso-descendentes venezuelanos desde 2016.