O dia seguinte (III e último)

Fecho aqui o ciclo de reflexões pós jornada multi-eleitoral e aos desafios que se abrem no futuro dos principais partidos.

No caso do PSD, volto a sublinhar que é fundamental abrir-se à sociedade civil, como referi no meu artigo de dia 15 de Outubro. O caminho não é fechar-se em si mesmo. É trazer quem nunca esteve ligado diretamente à atividade política e partidária mas que é interessado na causa pública. O PSD tem estruturas próprias para motivar um debate na sociedade, continuando a ser o partido mais inovador e agitador das mentes e consciências. O desafio está em saber utilizar esses instrumentos. Foi com satisfação que vi o presidente da comissão política do PSD afirmar que o partido tem de se abrir a novos quadros. Este é o sinal definitivo que indica que partido percebe que a sociedade madeirense mudou e continuará a mudar. E se mudou principalmente por ação do PSD, agente primordial de mudança na Região, também devem ser os sociais-democratas a capitalizar com esse processo evolutivo. Sempre valorizando as capacidades políticas, técnicas e de rasgo dos seus quadros.

Outros dos desafios é sobreviver imaculado à disputa nacional do início do próximo ano. Perspetivando que institucionalmente o partido não tomará, e bem, qualquer posicionamento formal é importante que a disputa não tenha um efeito de contágio na unidade regional consolidada. Isso não quer dizer que o militantes e simpatizantes regionais não se envolvam a título individual. Pelo contrário. O capital político do PSD-Madeira, a qualidade dos seus quadros e a sua experiência governativa, bem como pelo facto de sermos a única região onde o PSD é poder, quase que obriga a que contribuamos abundantemente para o debate que o partido carece a nível nacional. E não é sadio que apenas um dos candidatos anunciados tenha apoio expresso por parte de destacados militantes regionais. O Ideal é que todas as candidaturas tenham expressão regional. Sem contágio bélico, pois o fundamental é a defesa da Madeira. O resto é “2ª liga”.

Já o CDS tem de saber encontrar um caminho próprio no âmbito da Governação, que agora se encontra incluído. Um caminho que, necessariamente solidário e concertado, não se confunda com o do PSD. Não seria positivos para os centrista, nem para o sociais-democratas, nem tampouco para a democracia da Madeira, que o CDS fosse engolido pelo PSD.  Como em qualquer dinâmica política, há eleitores do CDS que apreciam que os democratas-cristãos estejam no governo mas que dificilmente votariam no PSD. Do mesmo modo há muito eleitor laranja que tem uma “antipatia congénita” relativamente ao CDS. É normal. O desafio para o CDS é ganhar o seu próprio espaço sem colocar em causa os compromissos de governabilidade. O desafio para os centristas é saberem conciliar as duas vertentes, Governativa e partidária. Ambas serem eficazes mas autónomas.

O PS vive uma situação peculiar. Depois de dissipado o fumo dos foguetes de campanha, pouco parece ter restado. Na história das democracias (e não só) conhecemos muitos exemplos de partidos tão dependentes dos seus líderes, que são conhecidos como “partidos de um homem só”. Geralmente são projetos pessoais de quem entra em cisão com o partido e resolve fundar um novo. Este PS não é um partido de um homem só, isto se já estavam a antecipar a analogia. É sim um projeto de dois homens. O atual PS resume-se a Paulo Cafôfo e a José Miguel Iglésias. Isso foi visível no primeiro dia de apresentação do programa de Governo, como é claro na forma como o partido comunica. Toda a propaganda centrada em Cafôfo, com direito a um vídeo promocional da sua entrada na Assembleia Regional (o que deve ser inédito e é, assumamos, ligeiramente ridículo) e a parte de debate, no parlamento e nos meios de comunicação, a cargo de Iglésias. O que é curioso é que o PS resume-se a duas pessoas precisamente num cenário em que estes têm atrás de si mais de dezena e meia de deputados, a quem parece ter sido destinada a função de bater palmas a cada intervenção (!!!) e ao levantar de questões muito circunscritas a determinada área geográfica ou temática “trendy”.