Curvado

Há 73 meses atrás, Rui Barreto foi suspenso pelo seu partido por ter quebrado a disciplina partidária na votação do Orçamento de Estado da autoria da coligação PSD/CDS.

Como Deputado à Assembleia da República, teve a coragem de afrontar o seu partido, pois considerava que o Orçamento de Estado prejudicava a região. Teve coragem, deu o corpo às balas e ainda hoje faz festa com esse voto.

Há 63 meses atrás, Rui Barreto, num artigo de opinião, criticava ferozmente a política orçamental da região, com referências ao excessivo défice e aos juros astronómicos, resultantes de um acumular de dívidas sem precedentes.

Há 47 meses atrás, Rui Barreto considerava o orçamento da RAM para o ano de 2016, como uma verdadeira desilusão, pois tendo terminado o PAEF, deveria de haver a reposição de rendimentos pela via fiscal para as famílias.

Há 35 meses atrás, Rui Barreto, sobre o Orçamento da Região para 2017, dizia “O Orçamento Regional é uma oportunidade perdida (…) mantém a economia num estado anémico”.

Há 24 meses atrás, Rui Barreto escrevia sobre o Orçamento para 2018 que “No IRC, é quase anedótico reduzir 1 ponto percentual para os primeiros 15.000 euros – 150 euros”.

Há 13 meses atrás, Rui Barreto dizia “O presidente do governo habituou-se a governar com impostos a mais”

Ao longo destes 73 meses, o discurso do CDS e de Rui Barreto, sempre foi um discurso de oposição, de um partido que se preocupava com a região, que manifestava o seu claro desagrado com as políticas de um PSD gasto, sem ideias, sem rumo. Ao longo destes 73 meses, o CDS foi um partido de oposição.

Após o dia 22 de Setembro de 2019, Rui Barreto começa a curvar-se perante o gigante PSD. Curva-se à caça da esmola da salvação. Da esmola que salvasse o seu “coiro” de uma derrota estrondosa, uma queda para menos de metade do que antes era. Curva-se ridiculamente, esquece o seu passado, ignora o passado dos seus companheiros que muito lutaram pela afirmação do seu partido, sempre por um regime democrático mais justo, mais equilibrado.

Curva-se perante o poder, pela ansia do poder. Curva-se amnesicamente, deitando no lixo todo o seu historial. Hoje não quer afirmar-se contra os seus pares quando antes considerava que os interesses dos madeirenses estavam em causa, arriscando a expulsão do seu próprio partido. Aceitará a quebra da disciplina de voto de um deputado do seu partido, que afirme estar a defender os interesses dos madeirenses?

Hoje o défice excessivo não lhe faz confusão, os juros astronómicos também não. A reposição dos rendimentos pela via fiscal para as famílias, pode continuar adiada. Há 35 meses atrás considerava a economia anémica, hoje já diz com orgulho que a economia cresce há 73 meses.

Há 2 anos, a descida de 1% no IRC era anedótico, hoje já é um orgulho e se há um ano atrás dizia que era um hábito do governo de então, governar com impostos a mais, hoje certamente dirá que desde há 73 meses que a carga fiscal é a adequada para os madeirenses.

Hoje a região tem menos um partido de oposição, o partido que foi outrora o maior partido da oposição. Poderíamos pensar que região tinha um novo partido no poder, não tem, tem apenas um partido curvado perante os mesmos de sempre. Curvado perante aqueles que sempre lutou ao longo de 43 anos.

Perdeu-se um partido de oposição, não se ganhou um partido de poder. Em menos de um mês, Rui Barreto provou aquilo que eu disse ao longo dos últimos tempos, votar CDS seria o mesmo que votar PSD.

 

Duarte Caldeira escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas