A tancareira

Só os anjolas é que não acreditam na interferência de sociedades secretas nas vidas do País, em termos de, fora da transparência democrática, "interesses" de respectivos "associados" se sobreporem ao Bem Comum da comunidade.

Como é também anjolada não querer ver que tais forças de pressão logicamente têm particular apetência para se instalar em Instituições de peso ou de relevo na vida pública, nacional ou internacional.

E serão também pueris aqueles que não percebem como, obviamente para os fins pretendidos, por esta gente são instrumentalizados meios de comunicação social.

Espanta-me que, por comodidade intelectual, ou por medo da confrontação séria com a realidade, também na Madeira haja quem não se esforce por perceber este óbvio.

O que acabo de dizer, nada tem contra a Liberdade e o Direito de associação.

Para mim é sagrado.

O que ponho em causa é o facto de, sendo a Democracia por definição transparente para permitir a soberania do Povo nos termos constitucionais, se recorra ao secretismo para obter soluções que mexem com a vida das pessoas. E que várias destas soluções acabem por ser contra o Bem Comum.

Durante muitos anos, Lisboa pressionava uma solução para Instituição da vida do arquipélago sob sua tutela, pretensão que, pela dupla liderança, não só se revelava incompetente, como arrisca cobrir de ridículo a própria Instituição, quer pelo aumento de despesa pública que implica, quer pelo caricato dos meios disponíveis, quer pelo anedótico venezuelano da acumulação sobreposta de gente graúda, a quererem uns ficar à frente dos outros, o que ao menos será mais um motivo de gozo na praça pública.

No meu tempo por três vezes impedi tal ridículo (ver o livro "Relatório de Combate"), fazendo valer a legitimidade e autoridade da Autonomia Política constitucional.

Agora, optou-se pela solução colonial de ilegitimamente, de fora, se impôr uma solução a um território que é constitucionalmente autónomo, ignorando-se por completo os Órgãos de governo próprio da Região Autónoma.

O que só vem confirmar, inclusive aos por cá conhecidos habituais colaboracionistas de cócoras - o "partido de Lisboa" - o agravamento da posição colonialista de Lisboa, de há oito anos para cá.

Pior.

Aproveitando uma transição constitucionalmente resultante de eleições regulares, também foi ofendido um Profissional brilhante, na medida em que espezinhado para os fins equívocos, pretendido, agora nesta específica oportunidade.

Não me surpreende sequer.

Para certas organizações não transparentes, em Portugal é preciso arrasar Princípios, destruir Valores, impôr o relativismo e as "causas fracturantes", para que até as Instituições que fizeram Portugal percam força e melhor se instale o poderio dos "interesses" materialistas do sistema político-económico de capitalismo selvagem

Que até passam por cima de situações juridicamente autorizadas e com precedentes legais em eventos semelhantes.

Mas o problema não reside apenas na incompetência da solução imposta, nem na falta de carácter que envolveu a questão, desrespeitando Quem não merecia ser desrespeitado.

O problema está também no anedótico das sobreposições e do despesismo com a gente a mais, que se instala sem ser precisa ou benvinda .

Como português, não gosto de ver as Instituições Fundamentais mergulhadas em opções satirizáveis.

"A tancareira cozinhava um jantar delicioso, vestira a melhor cabaia" (Senna Fernandes em "Contos de Macau")