Pessoas escondidas em si

“Minha vida não foi um romance, minha vida passou por passar”, pobre vida, “passou sem enredo”. As palavras são do poeta brasileiro Mário Quintana e fazem-me pensar na história de tantas pessoas que nunca será contada. Ontem e hoje.

A impressão que tenho é que passamos de um mundo de pessoas para um mundo de persona(gen)s. Todos personificam cargos, funções, papéis, e procuram esconder-se neles, fazendo exatamente o que se espera de nós. Não é sequer uma máscara, é o mais profundo dos ilusionismos: desaparecer no mundo, sendo o que os outros pensam que somos.

Muitos fazem-no para não levantar ondas, para não criar problemas, para não ter de questionar a sua própria existência, desistindo de buscas de sentidos ou objetivos. Outros, fazem-nos apenas porque não têm outra opção de sobrevivência.

A forma como contamos a história da Madeira, por exemplo, sofre profundamente com estes “escondimentos”. Podemos ir à procura dos nomes que figuram em listas de passageiros, nos registos de passaportes, por causa das grandes viagens que fizeram e que marcaram a diferença face aos que ficaram. Nunca seremos capazes de fazer justiça, no entanto, às viagens interiores daqueles que não quiseram ou não puderam partir, acabando por desaparecer no aparente vazio do seu quotidiano.

Hoje há muitas histórias que se repetem e o passado pode servir de lição. Já neste espaço manifestei a minha convicção de que as memórias de cada um, para lá da construção institucional da história, podem servir como antídoto para a desconstrução da modernidade e a transformação da nossa realidade, cada vez mais segmentada e só aparentemente em ligação constante.

As memórias das pessoas têm estas dimensões de sensibilidade e emoção que muitas vezes escapam à racionalidade. Para além dos papéis, dos números, dos documentos, dos poderosos, há sempre pessoas de carne e osso, com a sua história, que pode parecer irrelevante, mas que é um testemunho fundamental do tempo que passou, vivido por dentro.