Desesperos

Este artigo não é para gente sensível.

Nos últimos dias fomos confrontados com uma notícia que não deixa ninguém indiferente: Um recém-nascido foi encontrado ainda com vida num ecoponto, como se de lixo se tratasse. Ainda tinha o cordão umbilical, aberto, com todos os riscos de hemorragia e sepsia associados. Um ser frágil, em estado de grave hipotermia, foi encontrado por um sem abrigo.

Por vezes é fácil, no conforto das nossas casas, junto das pessoas com quem partilhamos a vida, dizer que o que aquela mãe fez é imperdoável. É fácil dizer à boca cheia que, no lugar dela, faríamos diferente. Que há mecanismos de adoção e redes de apoio a grávidas, públicos e privados, que há Segurança Social ou instituições de solidariedade…

Mas a realidade é muito mais difícil.

É difícil pormo-nos no seu lugar. Desde logo porque não sabemos imaginar um desespero assim.

Não conseguimos imaginar quão grande é o estado de desespero de alguém que abandona assim um recém-nascido, o estado de desespero de alguém que dá à luz no meio da rua, sem condições, sem luz, sem água, sem ajuda, sem qualquer tipo de companhia, sem uma mão que a segurasse, uma mão a que se segurasse.

Não sabemos imaginar esse desespero, de alguém que durante estes nove meses não teve acompanhamento da sua gravidez, porque a escondeu. Não sabemos ainda as razões pelas quais a terá tentado esconder. Que fardos carregou esta jovem mulher para além da criança? De que fugiu? Como chegou a este ponto?

É fácil para nós indignarmo-nos, apontar o dedo àquela jovem e esquecermo-nos que nem todas as crianças são fruto do amor. É fácil dizer que havia outras soluções, mas para ela não houve. É fácil dizer “no lugar dela”, quando não sabemos como é difícil o lugar dela.

Pensamos que conseguimos imaginarmo-nos no lugar dela, mas na realidade estamos apenas a imaginá-la no nosso lugar….

E nós? Como chegámos a este ponto? Ao ponto de nos indignarmos por aquela jovem mulher ter deitado o filho para o lixo sem ao mesmo tempo nos condenarmos por a tratarmos também como lixo?

É sempre mais fácil julgar do que compreender.

Cubramo-nos de vergonha e que se nos queime a língua quando formos falar contra esta mulher sem conseguir imaginar o desnorte, o desespero em que se viu nestas últimas semanas, ou naquelas horas.

Este artigo é curto e não é para gente sensível, mas ver gente a viver nestas condições e virar a cabeça para o lado também não é de gente sensível.