O político, o académico e o aldrabão

Quando um político, um académico e um aldrabão entram num bar, a nossa primeira preocupação deve ser descobrir quem é quem. Numa sociedade que abandonou o culto do caráter para se dedicar ao culto da personalidade, essa tarefa revela-se cada vez mais ingrata.

Nas últimas décadas, fomos sendo ensinados a olhar para o lado quando o caráter de um politico é discutido. Aceitámos que esse tipo de escrutínio é desadequado. Até podemos apreciar uma boa bilhardice, mas dizem que fica feio avaliar de forma séria o caráter de alguém. Impuseram-nos a ideia de que uma mesma moeda pode ter duas faces, mas só temos o direito de conhecer uma delas. São iguais, as várias faces de uma mesma pessoa. Não se regem por diferentes escalas de valores morais. E quando o foco público recai sobre o lado indesejado, ninguém é mais competente a fazer crer que não temos o direito de para ali o dirigir do que uma pessoa desonesta. O leque de ferramentas compreende o falso moralismo, a vitimização e a desinformação. O choque de valores é de tal ordem que, por vezes, torna-se impossível vermos o que está mesmo à frente dos nossos olhos.

Falem de propostas, não de pessoas, dizem. Como se o valor, a intenção e a seriedade de uma proposta pudessem ser aferidos à margem da credibilidade de quem a faz. Muitos dos nossos males coletivos seriam evitados se fôssemos, enquanto sociedade, mais exigentes.

O académico André Ventura apresentou, há seis anos, numa tese de doutoramento a que o Diário de Notícias de Lisboa teve acesso, um conjunto de ideias e conclusões aparentemente ponderadas, a contramão do defendido pelo recentemente eleito deputado André Ventura. Nesse documento, o académico André denuncia o deputado Ventura ao referir, por exemplo, o "crescimento do populismo punitivo", descrito como "o processo pelo qual os políticos aproveitam, e usam para sua vantagem, aquilo que creem ser a generalizada vontade de punição do público". Fica a convicção de que André Ventura usou dinheiro do Estado, através de uma bolsa de estudo, para apreender o conhecimento que, agora desvirtuado, usa como cartilha extremista contra os cidadãos. Ora, aqui está um subsídio que o Estado devia ter poupado.

Costumo dizer aos meus alunos, em jeito de provocação, que se vierem a descobrir que a prática não é condizente com o que lhes ensino, agradecia que disso me informassem, porque nesse caso terei andado enganado durante todos os anos em que exerci a profissão para a qual ajudo a se prepararem. E não me passaria pela cabeça defender o oposto do que concluo nas minhas atividades de investigação científica. Já André Ventura, questionado sobre as diversas contradições identificadas pelo jornal referido acima, afirmou que “sempre distinguiu bem a parte científica da parte opinativa” e que a sua “tese não é uma questão de opinião, é uma questão de ciência”. Isto é, por si só, uma declaração de desonestidade intelectual. É verdade que a “parte opinativa” não tem de seguir o rigor formal a que um trabalho de caráter científico está obrigado, mas tem de ser séria, honesta. Infelizmente, o André Ventura não está só neste mundo.

O político, o académico e o aldrabão que entraram no bar deste texto são uma única pessoa. O académico apresenta-nos o político, como se de Dr. Jekyll e Sr. Hyde se tratassem, mas o que é do nosso interesse é conseguirmos ver o aldrabão que compõe o ramalhete.