O Trabalho como "segunda casa"

Quando ingressei na administração pública como técnica superior, há cerca de vinte anos, coube-me a sorte de ter uma chefe que, não obstante a sua assertividade e exigência e rigor com o trabalho (o que me merecia admiração), era de  um pendor humanista e até protector com quem trabalhava com ela.

Não se coibia de aconselhamentos nem de ensinamentos, sobretudo aos mais novos. E retenho, entre muitos outros, este: "Faça sempre por se sentir bem no seu trabalho, esta é a sua segunda casa e por vezes será aqui que passará a maior parte do seu tempo". Tinha razão, a par da harmonia familiar é fundamental o pleno bem-estar no nosso local de trabalho, motivados pelas funções e tarefas, amparados por cordialidade e até camaradagem e se possível por uma hierarquia que não se paute por autoritarismos tantas vezes advindos de inseguranças e incompetência, mas antes por uma liderança orientada por objectivos laborais sem descurar o cuidado e consideração com quem os concretiza.  E na verdade, não é só de bem-estar e de "harmonia" que se trata, é mesmo de saúde! A saúde de um trabalhador é um bem fundamental para o próprio, enquanto indivíduo e enquanto profissional, na medida em que influência o seu desempenho, o qual tem consequências no serviço onde se insere. E se é verdade que há abundante legislação que cobre as garantias e direitos de quem trabalha (apesar das várias investidas de governos de direita e até de esquerda para a fazer regredir...), não é menos preciso que uma larga maioria dos trabalhadores são cada vez mais acometidos por doenças do foro psicológico e emocional, ou seja, "doenças não visíveis" que tantas vezes os levam ao limite da suportabilidade psicológica, como a depressão, a ansiedade ou outra de natureza psicológica.

De modo crescente e recorrente tem-se ouvido e lido sobre a síndrome de Burnout, que só há pouco tempo foi enquadrada juridicamente como doença profissional no nosso país por iniciativa legislativa da CDU. É que esta doença tem precisamente como nexo causal o ambiente de trabalho adverso e hostil, conduzindo os indivíduos a um estado de esgotamento psicológico e de indiferença associados a uma frustração e insatisfação intensas com o trabalho, diminuindo-lhes a realização pessoal e fazendo-se acompanhar de sentimentos de incompetência e de fracasso profissional. E a que se deve? Bem, trata-se de uma patologia muldimensional e multicausal que decorre sobretudo da cronicidade do stress no trabalho e da desumanização no trabalho, muitas vezes decorrente da falta de atenção e de estratégias de prevenção por parte das entidades empregadores e hierarquias directas, o que colide irrefutavelmente com o princípio da dignidade humana. Mas como causas, entram também ambientes de trabalho que destabilizam o funcionário, ou o estabelecimento de objectivos impossíveis de atingir; a grande competitividade do mercado de trabalho e meio laboral; as avaliações que nem sempre premeiam quem merece mas quem a chefia quer, e para mais assombradas por quotizações; as perseguições a funcionários por não se regerem pela mesma "batuta", inclusive a ideológica, entre outras… que vão "enchendo o copo de água desses funcionários, gota a gota até que, a certo momento, transborda" ao ponto de, não raras vezes, poder incorrer em casos de suicídio ou de violência. E tudo isto, quando poderia - deveria! - ser o nosso local de trabalho, de facto, a nossa "segunda casa"...