Consciência Coletiva (In)Tranquila

Anteontem à noite, enquanto trabalhava no meu portátil, apitou um alerta de notícia no meu telemóvel. Abri a notícia do Expresso: um recém-nascido foi encontrado num caixote do lixo junto à discoteca Lux em Lisboa. Depois de ouvir um choro estranho a emanar do lixo, um sem-abrigo entrou no ecoponto, retirou o recém-nascido completamente desprovido de agasalhos e chamou ajuda. O bebé foi transportado com vida, mas em estado crítico, para o hospital D. Estefânia. Nessa noite, rezei por aquele menino que se encontrava agarrado à vida por tão frágeis fios.

Ontem vasculhei a internet à procura de notícias subsequentes a esse alerta. Teria o menino sobrevivido a tão brutal início de vida? Teria o sem-abrigo encontrado também ele ajuda depois de ter demonstrado aquele civismo que a sociedade por vezes lhe nega? O que terá falhado tanto no instinto daquela mãe e no apoio que certamente não existiu durante a gravidez, para conduzir a um ato tão contranatura? E como é que o lixo da discoteca se consegue horrorosamente transfigurar num depositário de abandono?

Felizmente, o bebé encontra-se a recuperar bem nos cuidados hospitalares e o Ministério Público já confirmou a abertura de um inquérito-crime. Muitas perguntas continuam por responder.

Nada sobre este acontecimento pode ser ignorado ou normalizado. O valor e a dignidade da vida humana são invioláveis. O início da vida de todos os seres humanos deveria ser um momento de extremo apoio, de carícias calorosas e de amor incondicional, sentimentos palpáveis em todas as gotas de suor e lágrimas que envolvem esse arranque para a vida. Naquele ecoponto do Lux não havia nada disso.

Não vamos ouvir no parlamento nenhum voto de condenação por essa violação sobre a vida e dignidade do menino. Nem haverá qualquer voto de louvor pela atitude do sem-abrigo que salvou a criança. Simplesmente porque não “encaixa” nas causas em voga.

Há uma frase de Mahatma Gandhi que é repetida à exaustão nas redes sociais: “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como os animais são tratados”. Com toda a admiração que tenho por Gandhi, não concordo plenamente com esta sua máxima. A grandeza de uma nação é antes julgada pelo modo como são tratados os seus seres humanos mais indefesos: as crianças, os idosos, os sem-abrigos, os migrantes e os excluídos. Os indefesos da nossa sociedade são o verdadeiro espelho da nossa consciência coletiva.

Caminhamos consistentemente para uma sociedade que equipara animais a seres humanos em termos de proteção, mas que ignora, por exemplo, os repetidos apelos do Presidente da República para a criação de uma estratégia nacional eficaz de apoio aos sem-abrigo. Uma sociedade onde os maus tratos aos animais são puníveis (e bem, claro) mas as propostas de criminalização de maus tratos aos idosos são chumbadas pela maioria parlamentar (que vergonha). Uma sociedade que aplaude a criação de um provedor do animal, quando nem sequer existe um provedor da criança. São essas as nossas prioridades coletivas?

Podem centrar os julgamentos morais sobre a mulher que contrariou o instinto mais forte da natureza (ser mãe e proteger a sua criança), mas olhemos antes todos no espelho daquela criança indefesa e do seu salvador, o sem-abrigo. Estará a nossa consciência coletiva assim tão tranquila? Duvido.



Sugestão da Semana: Amanhã comemoram-se os 30 anos da queda do Muro de Berlim. Uma boa oportunidade para (re)ver diversos documentários e minisséries que polvilham as televisões para assinalar esta ocasião. Recomendo “Alemanha 86” na RTP2 que ilustra bem o desmoronamento de todo o sistema comunista na Alemanha Oriental, e as vãs tentativas finais do regime autoritário em salvar-se financeiramente, paradoxalmente com recurso a práticas de capitalismo selvagem.