Outros tempos

Com o andar do tempo não se mudam só as vontades.

Mudam-se também hábitos, tradições e até profissões. Algumas adaptam-se aos novos tempos, mas outras pura e simplesmente vão sendo vencidas pela velocidade da evolução.

No meu tempo de infância tive oportunidade de conviver com algumas atividades que já não existem. Algumas pela sua particularidade deixam saudade.

Ainda me lembro do “Capoeiro”. Era o homem que com um pau ao ombro transportava galinhas vivas em cada uma das pontas da vara.

Andava de casa em a casa a vender e a comprar galinhas. Era uma atividade que despertava sempre muita curiosidade junto dos mais pequenos.

Aproximávamos sempre para ver as galinhas, os galos e os frangos vivos amarrados ao pau. Impressionante a forma como o vendedor pendurava as aves. Eram presas pelas patas e ficavam penduradas sem se mexer.

Na minha memória continua também o “Amola-tesouras”. Transportava uma máquina de fabrico próprio, com uma roda de bicicleta adaptada e com uma pedra de esmeril, amolava tesouras, facas etc. Do contacto do metal com a pedra esmeril, soltavam-se diversas faíscas.

Naquele tempo nada se perdia, tudo era consertado. As facas, as tesouras, as navalhas, eram amoladas vezes sem conta, bem como outros utensílios eram reparados por forma a não deitarmos nada fora.

O ‘’Amola-tesouras’’ concertava também guarda-chuvas e até remendava pratos de loiça e banheiras. Impressionante era a forma como voltava a dar utilização a um prato que se partisse, sem utilizar cola, apenas com uns “pontos” tipo grampos com arame.

Os “Amola-tesouras” faziam-se anunciar tocando uma flauta com vários tubos de plástico. Produzia um som, uma melodia inconfundível de tal forma que todo o sítio ficava a saber que o homem estava por perto.

Outra profissão da qual ainda guardo uma vaga ideia é a de “Adelo”.

Os adelos eram homens que percorriam os diversos sítios, vindos de outras paragens (dizia-se de Gaula) e que vendiam roupa. Vendiam lençóis, mantas, cobertores e também tecido a metro. Longe da realidade dos nossos dias, naquela altura eram eles que traziam a moda de então.

Estas profissões desapareceram e curioso que era todas desempenhadas por homens, se bem que podia acrescentar aqui a de “Parteira”, embora não sendo uma profissão, era uma actividade desempenhada por uma mulher. Tive uma tia que era parteira. De resto foi quem assistiu ao meu e aos partos dos meus irmãos lá em casa.

Os vendedores e compradores de gado, eram também frequentes na minha altura.

De casa em casa de palheiro em palheiro, faziam propostas para a compra e venda de vacas e vitelos.