História de Maria

“O amor é um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada” escreveu um menino de 9 anos, Vítor Barroca Moreira. Nos anos sessenta, uma professora decidiu acreditar nas crianças desfavorecidas da escola em que foi colocada. Ajudou-as a colocar em palavras as suas visões do mundo. Maria Rosa Colaço, a professora destes meninos e meninas com vidas muito sofridas, publicou o livro com esses textos: A Criança e a Vida. O livro está esgotado. Vi-o muitos anos depois de ter surgido. Lembro-me de ter achado que o trabalho daquela professora tinha tanto de maravilhoso, como de corajoso. Lembro-me também de pensar quão fantásticas são as crianças, pois parece que conseguem manter um olhar positivo sobre o mundo, apesar de muitas delas não terem direito a ter infância.

Nesse livro podem ler-se coisas maravilhosas que as crianças pensaram e escreveram. Acabaram por ser as mais felizes que passaram na opinião pública. Contudo, houve uma história que lá estava em que ninguém pegou. Escrita por uma menina. “A história de Maria”. Acabei por encontrar na internet, no blogue “TRI-ÂNGULO” o texto desafiante e muito profundo que ela escreveu na altura e que Maria Rosa Colaço incluiu no livro: “E Maria morta pensava: em cima da terra toda tem tanta comida, porque foi que eu morri com tanta fome?”

No séc XXI, continuam a existir crianças em Portugal que passam muitas dificuldades, inclusivamente com a alimentação. Há crianças subnutridas, apesar de obesas. Várias famílias não podem comprar o que sabem que é importante para as suas crianças. Optam por adquirir produtos mais baratos para que, em casa, toda a gente tenha comida no prato. Um quilo de massa e uma lata de salsichas rendem mais e são mais baratos do que legumes ou fruta. As refeições nas escolas são fundamentais para ajudar a equilibrar muitas dietas. Outros casos existem de famílias que não resistem aos brindes e promoções nos preços que as empresas alimentares associam a produtos que são autênticos venenos que se ingerem diariamente. A iliteracia alimentar também existe e tem consequências graves a médio e longo prazo na saúde das pessoas. Compete às entidades públicas investir em estratégias que ajudem famílias, crianças ou empresas a mudar práticas.

Gostava que conhecessem o projeto que a Associação de Pais da Escola Prof Eleutério de Aguiar idealizou. Desafiaram a Câmara do Funchal a investir numa maneira de alertar crianças e famílias para as vantagens e implicações de uma alimentação verdadeiramente saudável. O que têm feito, com a colaboração da comunidade educativa, tem sido um exemplo de coerência, entusiasmo e abrangência, alertando para a importância que as nossas escolhas produzem na qualidade da nossa vida e na do Planeta.

Dia 20 de novembro, comemoram-se os 30 anos da Convenção sobre os Direitos das Crianças. Foi um documento subscrito por unanimidade na ONU, em 1989. Os países obrigam-se a defender para as crianças os direitos económicos, sociais, culturais, políticos e civis. Façamos a nossa parte na construção de uma sociedade em que mais nenhuma menina ou menino pense como Maria morta: “em cima da terra toda tem tanta comida, porque foi que eu morri com tanta fome?”