Cartas de… Fora

Fui ver. Excelente programa. Imagem fantástica (a ilha e suas paisagens ajudam, mas saber mostrá-las é uma arte), a música está brilhante, o argumento é realista, o vocabulário e adereços são elementos enriquecedores, os atores estão de parabéns (grande parte não são profissionais, mas as personagens e caracterização foram muito bem conseguidas; muitos são reconhecíveis, o que o torna divertido).

Levam convosco um olhar sobre uma Madeira que existiu para muitos que ainda a lembram, mas a que muitos outros não têm acesso por via da idade. Já tinha visto o “Águas” e o “Feiticeiro da Calheta”, que também aconselho vivamente.

É uma lição sobre o caminho percorrido, o que se percorre e o que ainda há a percorrer.

É metáfora também. Todo o madeirense sabe que o seu percurso não é fácil ou simples e muito menos isento de perigos reais, desafios e embates dignos de suster a respiração face ao abismo, assumindo o risco que se impõe à verdadeira evolução que se pretende para todos os aqui nascidos, residentes ou descendentes (porque se há uma coisa que esta terra é, é mãe ciosa dos seus e dos seus destinos, ainda que por vezes seja madrasta a sorte que se lhes é imposta).

De entre as metáforas possíveis, relevo a da Autonomia, nascida de um espirito durante séculos subordinado a um rigor centralista e espoliador das arduamente extraídas riquezas da terra; evidencia-se formalmente em 1976 em termos de política administrativa. Mas a formalidade do seu reconhecimento não correspondeu em toda a extensão ao almejado exercício pleno. Não correspondeu e não corresponde, o que leva a que, tal como se quebravam as pedras da rocha necessária à construção e progresso (e neste especto não nos valem as maquinas e a evolução técnica que nos ajudam no plano não figurativo), seja necessário lançar de novo mão ao ferro de fazer rolar rochas à força de “sangue, suor e lágrimas”.

Nesta sede, relevo que o “nosso rocheiro” mais experiente está muito longe de estar relegado a uma enxerga e ainda que se tenha “despedido” das lides mais mediáticas, retornou quando “as coisas estão mais graves, porque António Costa nomeou uma série de gente que não tem capacidade, conhecimento nem competência para governar a Madeira. E voltamos ao mesmo: “a escolha entre autonomia e o colonialismo“. A escolha entre “uma política de desenvolvimento que fizemos durante 40 anos, que criou uma grande classe média na Madeira, quando antes ela não existia, que criou empregos, e do outro lado um modelo de domínio de sociedade que eles nos querem impor: é subsídios, é esmolas”.

Dito isto antes dos votos à urna, face aos resultados nacionais e o anúncio de dia 27 de outubro confirma-se: o contencioso autonómico é doença crónica para o homem que afirmou paixão pela nossa ilha (ou fixação, estilo stalker), mas foi incapaz de incluir um madeirense no seu top 70 governamental (pasme-se!).

Anunciou mais um degrau de rocha hierárquica para o distanciar desta “gente das ilhas” e daquilo que é seu de pleno direito: o Conselho de Concertação com as Autonomias Regionais, com um objetivo justificado em estilo “palha”, “para inglês ver”, para “português não perceber” e para “madeirense engolir” - é todo o estilo de jogar sem bola, tal como o “Estebes” e disfarçar para o arbitro não ver – o daqui nunca veria.

Aconselho-os, lá no retângulo, a irem também ao cinema e verem que por aqui residem e resistem “rocheiros” de todas as idades e feitios, que não aguardam as cartas de fora para fazerem talhar, na sua terra, o que é preciso, ainda que insistam em criar degraus de pedra adicionais para partir. Serão!