Somos todos Marítimo!

O ambiente no Marítimo tem andado tremido. A contestação à direcção tem sido uma constante e esta, na figura do seu presidente, não tem tido uma resposta condicente à sua condição. Mas, antes de entrarmos nestes considerandos, um ponto de ordem: somos todos do Marítimo, certo?

Que quer um adepto? Que quer o seu presidente? Que querem os treinadores e jogadores? Querem vencer. Todos, sem excepção. Podem ter uma maior ou menor ambição pessoal, mas todos querem ter sucesso. Os adeptos querem ver o seu clube a ganhar porque é isso que lhes traz satisfação e gratificação. O presidente quer ganhar porque vitórias e sucessos são bons para as contas e para o crescimento do clube. Os treinadores e jogadores partilham da ambição de serem bem sucedidos no seu trabalho e assim conseguirem melhores condições salariais e maiores desafios. É um conjunto de interesses que se conjugam, distando apenas na forma de como podem chegar à sua concretização. Ou seja, seja pela emoção, seja pela razão, ou seja, pelo contrato, somos todos do Marítimo! Ponto assente.

Quando em 1997 Carlos Pereira assumiu a presidência do Marítimo, este tinha um campo em Santo António e uma grande dívida. De lá para cá, o crescimento do clube é incontestável. Todo o complexo construído em Santo António (dois campos sintéticos, pavilhão, colégio, lar, etc.) bem como a jóia da Coroa, o Estádio do Marítimo. Mesmo desportivamente, no mandato do Carlos Pereira o Marítimo atingiu 7 participações europeias e 3 finais de taças, e firmou-se como clube de primeira liga. Ou seja, com um currículo deste tamanho era para ter uma estátua à porta do novo estádio. Mas não tem. E o que tem é uma contestação constante e que tem subido de tom desde a última temporada

Grande parte deste conflito advém da dificuldade em perceber que remamos todos para o mesmo lado. Todos queremos o melhor para o clube. E os adeptos são mesmo assim. Reagem a quente, tanto elogiam como criticam logo a seguir, são emocionais e muitas vezes pedem o impossível. Mas sem estes adeptos não há Marítimo. Poderá haver uma empresa com esse nome, mas que, mais tarde ou mais cedo, irá falir por falta de clientes e por falta do interesse dos patrocinadores em investir em algo que ninguém vê. Este conflito parte igualmente da dificuldade em compreender que é necessário preservar o estatuto que tão arduamente foi alcançado pelo clube. Os resultados desportivos são o verdadeiro catalisador do crescimento e até da própria angariação de sócios e accionistas, clientes e patrocinadores. Pelo que é imperativo um cuidado extraordinário na escolha dos jogadores e na pessoa que irá dirigi-los, num clube que já não se compadece com experiências.

Os desafios actuais para os dirigentes desportivos são enormes. Ainda mais face à necessidade crescente de obter receita para combater as crescentes desigualdades entre os clubes, quer dos tradicionais ‘grandes’, quer dos ‘novos ricos’ do futebol português. Estes desafios são ainda mais sentidos num clube insular como o Marítimo, que ao seu handicap acresce o custo da condicionante geográfica. Tudo isto obriga a repensar a estratégia e a forma de enfrentar os novos players no mercado, inclusive no que teria o Marítimo a ganhar com a entrada de um ou outro destes investidores no seu capital.

Mas para tudo isto há que sanar o ambiente. Há que perceber que o adepto é parte indispensável e indissociável do clube. E que merece todo o respeito. E, sem que isso menorize a sua posição, há que perceber que todas as direcções trabalham para os adeptos do clube que presidem. E que sem eles a vida será bem mais complicada.