Muitas memórias e alguma angústia

Deixemos a atualidade política para depois. E haveria tanta coisa para dizer sobre isso, neste momento. Falemos então de nós, dos nossos. Dos nossos falecidos. Dos amigos, do pai, da avó ou da sogra. Dos cemitérios onde se encontram sepultados. Pois é. Não é o tema mais encantador. Eu sei. Mas também temos de falar disso.

A realidade força-nos a tal. E vem a propósito. A recente notícia de que a Câmara de Machico decidiu encerrar o cemitério do Porto da Cruz, fazendo deslocar os respetivos funerais para a Água de Pena, no extremo oposto do concelho, decorrendo o dia de todos os santos e de veneração aos defuntos, deixa-nos a refletir sobre a atribulada saga dos cemitérios do município, nos últimos vinte anos. Obriga-me, mesmo que contrariado, a revisitar este doloroso tema.

Nem tudo é penoso. Há carinho e afeto quando percorremos este campo de meditação. Numa força que nos une a todos para além do tempo. Porque eles são perpetuamente uma parte de nós que já partiu. Nos defuntos vamos revivendo instantes do passado. Revisitamos os passos que nos trouxeram até aqui. Honramos a vida e as alegrias que partilhámos. E foram tantas com tantos que já lá foram. Familiares e amigos que, enquanto descansam em nós, são, quase sempre, doce memória.

Já no túmulo, onde jazem alguns, por vezes, são aperto e angústia. Não é dos temas mais agradáveis. Falar de mortos, de cemitérios, da visita anual tradicional a dois de novembro, dia de Finados. Falar de alguma falta de respeito pelas suas sepulturas, por aquele espaço de ligação entre a vida e a morte. Até porque, aqui pela nossa ilha, nem sempre o estado de conservação dos cemitérios espelha a devida consideração que todos os nossos defuntos merecem. Cada vez mais, os cemitérios são espaço e espelho de desistência.

Da família, ou do que ainda resta dela, que vai quebrando valores ancestrais. Desistência das instituições que na sua demanda pela satisfação imediata do eleitorado vão deixando ao abandono aqueles que já não contam.

E Machico nisso tem uma história agitada para contar. Uma crónica de cemitérios antigos e esgotados que foi preciso resolver. Contestação, clamor social, consternação. E alguém resolveu. Solucionou-se enfim com a construção de três novos equipamentos modernos, caros, e que contribuíram em boa parte para o endividamento municipal que tanto se tem apregoado. Mas nem todo o processo foi bem tratado por todos. No antigo cemitério de Machico, há anos desativado, e destinado a um futuro jardim, houve quem quisesse repor sepulturas e jazigos familiares. Um processo contestado e falhado, como falhado é o seu estado atual de abandono e incúria. O mesmo no Caniçal. Mas o caso mais atribulado foi precisamente o novo cemitério do Porto da Cruz. Terreno escolhido no tempo do PS. O cemitério construído no tempo do PSD. O padre da paróquia, sem se perceber bem porquê, nunca aceitou de bom grado a mudança do velho para o moderno equipamento. Uma intempérie destrói parcialmente o novo. O padre aproveita e impõe a sua vontade junto da Câmara para se voltar ao antigo, sem admitir a hipótese de recuperação do novo. O antigo fica rapidamente esgotado, como seria de prever. Agora nem cemitério velho, nem cemitério novo. Vai tudo para o outro lado. Para a Água de Pena. Mais um infortúnio. Outra vez.