O Nevada

Na minha casa nunca se guardam nem toalhas de praia nem fatos de banho. Ficam sempre à mão, prontos para aproveitar qualquer réstia de sol rapinada aos dias cinzentos e chuvosos do outono e do inverno. E foi exatamente, num destes últimos dias e entre a decisão de ir ou não dar um mergulho que me lembrei de uma das minhas praias de infância e juventude – as poças [hoje Doca do Cavacas] e dos dias, em que muito poucos se aventuravam a pôr o corpinho ao sol [e muito menos na água] mas nos quais lá estávamos nós, resistindo e aproveitando as águas ainda mornas e o calorzinho manso - o cenário perfeito para uma soneca retemperadora.

Era por esta altura que a levadia animava os mais destemidos, que numa boia feita de pneus velhos, se aventuravam furna adentro, sendo, muitas, vezes arrastados até à praia Formosa, perante os gritos de aflição dos banhistas de calhau seco. Nestes casos, a solução era regressar a pé, pela vereda, descalços, a pingar, mas com à boia à cabeça, tal troféu. Era ainda por esta altura que eu e os meus primos ficávamos de molho dentro da poça. Era assim que a minha mãe nos descrevia, quando olhando para a água apenas vislumbrava as nossas cabeças no meio das rochas e do lodo. Não nadávamos. Flutuávamos apenas e o objetivo era fazer o menor movimento possível e deixar os cardumes, de peixes minúsculos, nos circundar. Ficávamos horas assim. Quietos. Sem falar nem se mexer e quando a fome apertava [sabem bem o quanto a praia dá fome, sobretudo ao final da tarde], a minha mãe ou a minha tia, aproximavam-se da água e abasteciam-nos com o que restava do farnel, uma sandes mista, uma fatia de bolo de iogurte, um Capri-Sonne. Às vezes, em dias de bafejada sorte, tínhamos direito a um gelado, um NEVADA. Sei que muitos ainda se lembram desta delícia fabricada pela antiga ILMA. Não sei é quantos o saborearam dentro de água com uma chuva miudinha a cair e com os vossos pais enrolados em toalhas de praia, à espera.