O “Moisés” dos Alpes Orientais

Com a vetusta idade de 106 anos morreu a 23 de outubro deste ano, o sobrevivente do Holocausto Marco Feingold, nascido a 28 de maio de 1913 numa aldeia da Eslováquia, fixando a sua residência em Viena, onde frequentou a escola e se formou como empregado comercial. Entre as duas grandes guerras girou, com um seu irmão muito querido pela Itália, tendo aprendido a falar corretamente a língua de Dante.  A sua vida dava um belo filme épico. Após a anexação nazista da Áustria, Marco fugiu para Praga onde foi detido pela Gestapo, devido ser judeu, em maio de 1939, tendo em seguida sido preso em três campos de concentração, Neuengamme, Dachau e, finalmente Buchenwald. Quando foi libertado em 1945, pelas tropas americanas, pesava apenas 40 quilos tendo perdido todos os seus familiares, incluindo o irmão que tanto amava. Instalou-se então em Salsburgo a 300 quilómetros a leste de Viena, onde viveu o resto da sua vida, sempre em união com uma pequena comunidade judaica que presidiu até à sua morte.

 

Num livro entrevista, ironiza sobre o seu peso, afirmando: “Estas são as vantagens de uma administração eficiente...”  Este pequeno grande homem nunca perdeu o sentido do humor. MarkoFeingold era talvez o supérstite mais antigo do Holocausto na Áustria e, talvez, de toda a Europa. Os  judeus que ainda restavam na Europa, sendo alguns sobreviventes do Holocausto, desejavam residir na terra dos seus antepassados em Israel, entretanto a Áustria  fechou as  suas fronteiras para que os judeus não se dirigissem para a Palestina, Marko pensou talvez na  missão de Moisés a conduzir o povo judeu do Egito para a Terra dada por Deus aos seus pais e sentiu-se chamado a imitar o seu antepassado,  encontrou um estratagema  que o levou  no conjunto a conduzir para o sul 100 mil pessoas a atravessar a estrada que conduz ao Brennero italiano, dizendo que eram ex-internados italianos dos campos de concentração. Entretanto esta rota foi encerrada, Marko não desistiu, não precisava como Moisés de 40 anos para atravessar o Sinai.

 

A nova estrada que vai iniciar era a dos Alpes orientais com montanhas que atingiam 3.800 metros de altura, tendo a zona dos altos Tauri bosques de abetos e estavam pouco povoadas. No verão de 1947, 5.500 adultos, crianças e anciãos, atravessando os Alpes orientais conseguem chegar até ao Alto Adige, zona de uma paisagem extraordinária onde ainda se falava a língua alemã e a população ajudaria a passagem da longa caravana, dirigida por um pequeno condutor com a argúcia, constância e decisão semelhantes à do herói bíblico. Do Alto Adige, terra que tive de visitar várias vezes em serviço do Colégio Português, guardo as melhores recordações daspaisagens e carinho das populações, a caravana conduzida por Markoembarcou para a Palestina, e o seu herói, como Moisés no Monte Nebo viu, mas não entrou na terra da promessa divina. Uma Associação “Alpine Peace Crossing” recorda todos os anos com uma marcha da Paz este caminho da fuga. Com a fundação do Estado de Israel, a Áustria reabriu os confins e Feingold transferiu-se para Salsburgo, a terra de Mozart, para viver e ser presidente da pequena comunidade hebraica. Marco apresentava-se como homem crente, foi chamado a proferir diversas conferências e entrevistas, numa delas disse: “Visto a série de coincidências na minha vida, qualquer coisa deve por isso existir...”