André e Joacine

Tenho-me lembrado muito, ultimamente, de um senhor que conheço, o qual tinha uma solução radical e definitiva para todos os males da região e do país: um pelotão de fuzilamento.

Perante todo e qualquer tema de conversa, fosse este a notícia de um assalto por esticão, a criação de um novo imposto, a descoberta de mais um caso de corrupção, uma marcha pelos direitos de uma minoria ou uma greve por melhores condições salariais, a sentença era dada de supetão, sem a menor hesitação:
- “Eu cá sei bem o que fazia. Pegava nestes gajos, encostava-os a uma parede e passava-os todos a tiro. Era fuzilar esses filhos da p**a todos, um a um. Limpar-lhes o sebo. Ficava o problema resolvido. F***r esses sacanas com um balázio a meio dos cornos, mainada!”
As invectivas chegavam a ser bem mais longas, com várias cambiantes e diversificados epítetos. De nada servia tentar argumentar que vivemos num Estado de Direito, que fomos pioneiros na abolição da pena de morte, que tem de haver um nexo de proporcionalidade entre os crimes e as condenações, e até mesmo que, se começássemos a fuzilar os políticos de cada vez que deles discordássemos, ficaria difícil encontrar interessados em dedicar-se à causa pública. Aí, já sabíamos que a resposta estava na ponta da língua:
- “Esses tipos são todos iguais, não se perdia nada, porque não há um que se aproveite. Esquadrão de fuzilamento e pronto.” (e lá repetia a ladainha). 
Mais recentemente, conheci um outro indivíduo, que bastando estar com um “grãozinho na asa” (raramente era só um grão, na verdade), interrompia os diálogos alheios para ditar a sua sentença: “Era capar ele…”. A potencial vítima desta fúria castradora podia ser um violador, mas também um pequeno criminoso, o advogado que o tinha defendido, o juiz que o tinha devolvido à liberdade, ou um qualquer autarca, deputado, ministro ou político em geral, pelo simples facto de o ser. “Capar eles”, aparentemente, era a única forma de extirpar todos os males da sociedade. Uma vez, já cansado de ser interrompido, perguntei-lhe se só tinha castigo para os homens. Então, às mulheres que prevaricassem, o que lhes faria? O homem pensou durante uns momentos, pegou no copo e esvaziou-o de um só trago. Após um breve trejeito, estalou a língua e berrou, triunfante: “CAPAVA ELAS”.
Vem tudo isto a propósito das duas estreias parlamentares que marcaram o arranque desta legislatura, na AR: a de André Ventura e a de Joacine Katar Moreira. No caso da deputada do Livre, o foco desviou-se das suas ideias, concentrando-se na sua gaguez (cuja hipotética falsidade tem gerado acesos debates nas redes sociais) e nas saias do seu assessor, que até teve honras de “ir ao Goucha” (não é um trocadilho). Já no que se refere a André Ventura, foi notório o impacto positivo (pelo menos nas redes sociais), pela forma como confrontou António Costa.
A meu ver, são ambos potencialmente “perigosos”. A entrada em cena de Joacine veio deslocar o Livre do posicionamento moderado que Rui Tavares lhe imprimiu quando o fundou, arrastando-o para uma ponta esquerda que quase anula o indivíduo, completamente esmagado pelo “bem maior” do colectivo. Já André Ventura é o “pintas” bem-parecido e bem-falante, capaz de vender um pente a um careca.
Lê-se os programas dos dois partidos, e damos por nós a concordar com tanto do que lá está escrito. Mas, na prática, cada um à sua maneira, através dos deputados que elegeram, andarão a lutar por várias versões do “fuzilem-nos todos” e do “capem eles”.
O pior é que o povo gosta disto e aplaude. O pior é que as soluções radicais, por mais irrealizáveis e estapafúrdias que sejam, colhem cada vez mais adeptos. O pior é que os políticos dos partidos tradicionais assobiam para o lado e não mexem uma palha para se reinventar e combater os populismos.
Quando estiverem encostados à parede, com uma venda nos olhos, é capaz de ser tarde de mais…

 

Raul Ribeiro escreve
ao sábado, de 2 em 2 semanas