Happenings

A propósito da arte, Aristóteles já dizia que o seu objetivo não é representar a aparência externa das coisas, mas o seu significado interior.

Concludentemente, diferentes sociedades produziram alguma forma de arte sintomática da sua época, dando origem a sucessivos movimentos artísticos pontuados no espaço e no tempo. Se numa fase inicial estes perduravam ao longo de muitos anos, a partir do século XX proliferam de forma repentina.
Um movimento particularmente fascinante nasce em pleno século XX – a arte performativa. Esta compreende diversas formas de arte apresentadas ao vivo frente a uma plateia. Tivemos os futuristas a prelecionar os seus manifestos, os dadaístas a fazerem as suas apresentações sem sentido e os surrealistas a encenarem as suas produções de vanguarda. Até que, em 1957, Allan Kaprow cunha o termo Happenings para descrever performances artísticas ao vivo, rapidamente adotadas mundo fora. Numa fase inicial, estes Happenings centraram-se na expressão corporal, confundindo-se como Body Art. Cedo começaram a exprimir pontos de vista diversificados, representando atividades e rituais que, umas vezes roçavam o absurdo, outras tantas assemelhavam-se a uma forma de entretenimento que acompanha a Pop Art. Mas é o termo «ações» aquele que melhor distingue as performances artísticas dos espetáculos teatrais convencionais, pois como refere Joseph Beuys, «ações» envolvem complexas alegorias a questões sociais e políticas.
Apesar deste movimento artístico ter predominado na década de 60 do século passado, arrisco-me a afirmar que se reveste da maior pertinência nos dias que correm. A velocidade com que a tinta escorre e inunda os meios de comunicação social (redes sociais incluídas), fruto das transbordantes mudanças que caracterizam o panorama atual, consagra a este movimento o importante desiderato de colocar em perspetiva os mais variados temas da coisa pública. Este tipo de arte permitiria instigar uma reflexão imersiva recorrendo a poderosas metáforas que colocam os dois hemisférios cerebrais a funcionar, desafiando o dualismo cartesiano, no simultâneo apelar à razão e à emoção. Concebamos o que seria estar a desfrutar de um morno passeio tardio numa qualquer promenade e defrontar-se com um Happening a satirizar temas como o ócio e o lazer. Ou talvez numa gélida caminhada apressada para o emprego esbarrar, num qualquer largo da urbe, com uma performance convidativa a refletir sobre a parafernália do capitalismo selvagem. Talvez passássemos uns perturbadores segundos, minutos ou até mesmo horas em introspeção onírica, qual sonho lúcido, a repensar a forma como miramos o mundo e como esse olhar condiciona o nosso comportamento.
Imaginemos o seu poder pedagógico quando focado em temas como o ambiente, o civismo, a justiça, a humanidade, a ética e até mesmo a estética. Fruiriam ser poderosos instrumentos educativos (des)construtores de realidades sob a forma de educação não formal complementar ao sistema de ensino tradicional. Poderiam ser uma excelente ferramenta de team building ao colocar o ónus nos complexos processos sociais dos indivíduos em contexto de trabalho. Ou até uma forma de, em espaços comunitários, levar as famílias a analisarem as suas dinâmicas e a melhorarem os seus intrincados laços relacionais.
As hipóteses são infinitas em potência e tal como dizia Peter Drucker, a melhor forma de prever o futuro é criá-lo. Porque não criarmos os nossos próprios Happenings?