Vinho novo

O ronronar dos seixos na barriga da pipa desvirgulava a manhã. Quatro pares de braços, estirados em lapsos sonoros de varão, comprimiam a baila aguada do casco sobre os troncos de pinho.

Ao lado, no lagar do feitor, o burburinho do último mosto escapava à volumosa corda até cair, como murmúrio final, na tina cheia (sob o pasmo rangido de uma pedra dependurada em parto lento de fuso). Ali mesmo, namorando a sombra de um alpendre agonizante, três barris baforavam uma outra fermentação, roubando alma aos gracejos do magote madrugador. Setembro chegava vacilante, entre dois tempos e duas luas, esbulhando das uvas a força do grau e deixando aos homens a orfandade dos grilos.

Na loja do mestre António, festeiro da jorna, o jaqué burlava a secura de meia dúzia de garotos. (Tinham idade para vindimar, tinham idade para beber.) Um sacramento de excepção, alongado em baforeiras de satisfação exagerada – destiladas à dimensão de uma senhoria passageira. Palmada enxuta no ombro: “Eia, homem, que és filho de teu pai!” Nova roda e gira o corno cavo pelas mãos tingidas. Uma vez por outra (conforme a maré do mestre), um cigarrinho para limpar o palato e crismar quem já tinha baptismo suficiente. No purgatório das latadas (em nada menos duro que os infernos de poios matinados) descortinava-se o paraíso presumido dos vinte e um – a vista turva assim o jurava e a esperança nunca se percebe enganada.

Um alguidar de milho cozido em porção generosa servia de sustento bastante aos fazedores de vinho novo. Dispunham-se por terra, à volta do tosco recipiente: cada qual com sua borda e seu quinhão, fronteirado a olho nu na paz precária de um barro por todos dividido. Os mais novos viam-se dominados pelas artes predatórias dos mais velhos – temporariamente convertidos à justiça do regedor, a tal que dá a cada um na medida do seu tamanho. O telintar estrepitoso das colheres de latão afastava os rumores de outros vazios e enganava a lembrança da fome em noites desamparadas de bochada. Enquanto não se avistasse o fundo ocre a intervalar o que faltava comer, imperava a voracidade muda. O vagar era virtude de fartos (e o mundo sempre fora dos afoitos, nunca dos virtuosos). Nas usanças e rotinas do correr das horas afinavam-se as astúcias de um viver maior, obrigado a preceitos herdados à beira de berço pequeno.

Havia que dividir o mosto. Pagar o lagar e os homens. Cobrava-se ao bagaço a promissória dos dias gastos entre o tortuoso serpentear das videiras e o sussurro das chuvas. (Há riqueza no pouco, se certo e seguro for.) Era, portanto, na partilha do insuficiente que se teciam os rigores de uma abundância avinagrada. Sepultavam-se os queixumes no jazigo do pensamento. A vida dá-se a quem a busca. Era assim. Não ganha vinho novo quem poda parreira velha – diziam os velhos. O vinhateiro sabe que a sujeição precisa de sujeitos, que cabe a quem ordena indicar as veredas feitas e os carreiros certos que outros hão-de trilhar. A vide, contudo, quer o alto – e quem sonha voar não procura caminhos nem conhece submissão.