Premir o gatilho, ou não?

Eu nunca votei. Digo isto, não como acto de contrição ou pedido de desculpas, mas como declaração de interesses, vá

A princípio, confesso, houve alguma preguiça; estando a estudar fora da Ilha, teria de escolher entre viajar até a minha mesa de voto ou passar por uns quantos tornos burocráticos para votar à distância. Depois li, ouvi, conversei, debati, e li mais um pouco, e cheguei a um ponto em que me é ideologicamente difícil — se não impossível— votar. É hoje um acto consciente e militante. Contudo, nas eleições legislativas que se aproximam, apesar de não ver a luz que desejo, vejo um passo na direcção que considero certa.

Votar é um acto agressivo. Não digo isto da boca para fora, nem pretendo criticar quem vota. Toda e qualquer lei, por mais justa e bem-intencionada que seja, implica a ameaça de violência (multa, prisão, etc.). É assim que funciona um estado; uma espécie de vedação comportamental que a larga maioria das pessoas aceita, e escolhe ignorar, por conforto e segurança. Por isso é que, não votando, não condeno quem vota. É uma acção natural, de auto-defesa, já que a mecânica racional é a de que, se o voto do meu vizinho é contrário ao meu e me pode ser potencialmente prejudicial, eu tenho de votar para o contrariar. Eu quero que ganhem aqueles que eu acredito que me beneficiam. Reitero: é natural e compreensível.

Sendo assim, que escolhas temos?

Há partidos que dizem pretender resolver todos os problemas que existem, mas que já provaram ser mais eficazes a causar mais problemas com as suas soluções, e a solucionar muitos problemas privados a amigos, familiares e patrocinadores. São partidos com provas dadas, como a criação de impostos sobre toda e qualquer actividade humana, bancarrotas, patrocínios de estado a bancos e empresas moribundas, e muitos investimentos públicos que de pouco mais servem que para dar negócio a uns quantos empresários amigos do regime que estiver no poder.

Outros há que inventam problemas onde não os há, ou que são da esfera íntima de cada um, para depois declararem que os resolveriam praticando bullying estatal sobre toda a gente. É enformar a malta numa vedação mais pequena, que o indivíduo é um animal pouco fiável. Estes pretendem que este animal pouco fiável se extinga, dando lugar àquele Homem-Novo que só existe em prol do Bem Comum, sendo este definido não pelas relações sociais naturais, mas por um qualquer comité que se dirá científico — quem sabe se divino!

Também há partidos que cavalgam, sem grande definição ideológica — a não ser, sem originalidade, a de que o estado tudo resolve — a afinidade das pessoas por animais. Outros encavalitam-se na afinidade negativa de alguns cidadãos por tudo o que seja diferente — talvez temendo algum contágio.

Descarregados os maus fígados, chego ao quadradinho no qual, talvez, potencial e eventualmente, eu considero desenhar a minha primeira cruz, ao cabo de 24 anos de permissão e convite do estado português para votar. Este partido, usando a metáfora do segundo parágrafo, apregoa o alargamento da vedação, espera-se que para dimensões que tornem o choque com a dita cuja uma coisa rara. Este partido pugna pelo esbater da presença do estado em quase tudo, e pela sua extinção na esfera privada. É um partido que diz não pretender conduzir ou pastorear.

Se o leitor, como eu, acha que o estado lhe pesa nas costas (na carteira, então!…) e que mete o bedelho onde não deve, procure. Eles andam aí, num cartaz, numa rede social; no seu desejo mais íntimo.