Da importância de um par de sapatos

Um par de sapatos tem um poder sobre quem o usa que não é de desprezar.

Tenho muita atenção a escolher o calçado, consoante as ocasiões. Não sendo alta, prefiro sempre escolher sapatos com algum salto. Dá-me autoconfiança no mundo da política que parece um clube masculino, onde as mulheres são toleradas, desde que não incomodem. Mas confesso que este 2019 tem sido um ano que me tem obrigado a refletir sobre a ideia que tinha da importância dos saltos altos. Partilho convosco duas experiências traumáticas que tive na freguesia do Monte em agosto.

No dia 1, acompanhei a minha colega Idalina Perestrelo na cerimónia de lançamento da primeira pedra da reconstrução da capela das Babosas. Nos meus pés, brilhavam umas sandálias de que gosto muito. BASTANTE altas. Confortáveis. Plataforma bonita, trabalhada em preto e branco. Um pequeno senão: na zona por baixo do local onde se apoia o calcanhar, a cunha é estreitinha, provocando algum desequilíbrio em zonas com calçada madeirense. Avançámos as duas para as cerimónias na igreja do Monte e depois partimos em procissão para a zona do lançamento da primeira pedra. Tudo organizadíssimo! Até que chegámos à rampa atrás da igreja. Inclinada e com calhau irregular. Cheia de pedrinhas pontiagudas. Um calhau dos infernos, devo dizer, para quem usa saltos altos. Nessa altura, no meu cérebro, acendeu-se uma luz vermelha de perigo: as sandálias! God! Respirei fundo e comecei a descida. Passinho aqui. Passinho ali. Calafrio com um desequilíbrio. “Endireita-te, Madalena. Com sorte ninguém vai notar!” Outro calafrio. Outro ligeiro desequilíbrio. “Mas quem é que inventou os saltos altos? Bolas para eles ou elas! Qual foi a minha ideia ao calçar estas sandálias? Raios! Bem, ninguém está a notar.” Oiço uma voz ao meu lado: “Se quiser pode dar-me o braço”, diz-me o deputado do PSD, Paulo Neves. Engoli em seco, pus o meu orgulho de lado e agarrei com grande alívio aquele braço.

Dia 15 de agosto voltei ao Monte. Desta vez para a procissão da padroeira do Funchal, Nª Srª do Monte. Pensei muito ao escolher o calçado. Não queria passar por outro vexame. Decidi-me por uns sapatos com salto relativamente baixo, confortáveis, rosa, com pedrinhas na biqueira. Lindos. “Estes, SIM!”. Começou a procissão. A descida até ao Largo da Fonte correu bem. “Madalena, és um génio! Sapatos é contigo! Falhaste há dias, mas até os génios se enganam!” 1ª nota mental: “a big applause to me!” Largo da Fonte: excelente ritmo. Equilíbrio perfeito. A procissão segue para o início do trajeto dos carros de cesto. “Muito bom”, penso. Andar seguro, elegante dentro do possível, claro, com aquele calhau todo… 2ª nota mental: “isto está muito fixe!” Parte final do trajeto: rampa, em direção à igreja. Começámos a subida. Um passo. O sapato desliza no alcatrão com sebo, obrigando-me a deslizar com ele para trás. Outro passo, novo deslize. Mais um passo, deslizo (graciosamente, claro) novamente. 3ª nota mental: “daqui a pouco escorrego e atinjo o vereador Ruben que vem atrás de mim... será que descalço os sapatos? O asfalto está a ferver! Arre! É que só mesmo eu! Burra até dizer chega!” Neste momento ouço uma voz suave ao meu lado: “se quiser segure-se ao meu braço.” Era um segurança. Nem hesitei! Agarrei-me a ele como se o mundo fosse acabar. Só o larguei quando acabou a zona ensebada dos carros de cesto. Terminei a procissão sem quaisquer outros incidentes, agradecendo discretamente ao agente. 4a nota mental: “com sorte, ninguém reparou!” Quando estava a tirar a capa e a faixa, o meu adjunto chegou ao pé de mim e disse: “Vi que subiu em… segurança!”