Sinodo especial pela Amazónia

Muito antes dos novos incêndios que têm devastado uma parte da grande floresta da Amazónia, a Igreja Católica já se debruçara sobre as populações que habitam nesta grande zona do seu território e o Papa Francisco, também ele nascido ma América Latina, conhecia as grandes preocupações do episcopado brasileiro sobre os grandes problemas destas populações, e das devastações das florestas que constituem este grande pulmão verde, necessário a toda a humanidade. A primeira preocupação da Igreja era conhecer bem a alma e tradições deste povo indígena para melhor o evangelizar. O Papa Francisco, de acordo com o episcopado brasileiro decretou a realização de um Sínodo para o povo da Amazónia.

Os estudiosos da teologia espiritual estão de acordo que o conceito de espiritualidade não se limita apenas a algumas religiões particulares, mas a qualquer pessoa ou grupo que tenha uma crença no divino ou no transcendente e modele a sua vida baseada nas suas convicções religiosas. Assim como falamos de espiritualidade cristã, hebraica, zen, budista ou muçulmana, também se pode falar de espiritualidade indígena da Amazónia. Os índios do Brasil atualmente são 900.000 mil, no princípio da colonização portuguesa, dependentes da Diocese do Funchal, eram cerca de 11 milhões. Hoje são constituídos por 305 grupos étnicos, com 274 línguas diversas, segundo os dados oficiais do governo. Devido a esta diversidade temos de falar de espiritualidades indígenas embora com pontos comuns entre elas.

Como nas culturas antigas, também aqui os índios acreditam na divindade, têm uma herança mitológica que continua viva, relacionada com as forças da natureza, com uma relação natural e cultural entre eles e a floresta, os rios, a terra, os animais; este povo sente e vê a natureza não como qualquer coisa estranha à sua existência, mas como parte da sua sociedade e cultura, uma extensão do seu corpo pessoal e social. A natureza fala e o indígena compreende a voz e a mensagem, nos seus rituais milenários os nativos procuram uma união harmoniosa com a Mãe Terra. Na floresta há espíritos que podem ser aliados ou adversários, que podem ajudar ou dificultar, curar ou causar doenças, que devem ser placados ou afugentados, entra-se no mundo dos espíritos por sonhos ou visões, por meio dos sonhos fala-se com os antepassados, pode-se conhecer a origem das coisas, como curar as doenças e dominar as forças mágicas. Neste contexto, Deus assume muitos nomes e mutas formas, é transcendente, está acima e para além deste mundo, mas esconde-se para além de todos os seres e de todas as coisas presentes na natureza, os seres humanos não vivem só no mundo, mas principalmente com o mundo, a espiritualidade indígena ensina a viver em harmonia com a natureza, abre o coração ao transcendente, à generosidade e à gratuidade em relação com os outros seres que habitam a floresta. As crianças, desde a infância, apreendem estas relações entre Deus e a natureza, contemplando a Mãe Terra, com repercussões diretas na vida comunitária dos índios e na sua procura de uma vida plena de harmonia com a floresta e a sua fauna e flora, que eles consideram um lugar sagrado e cheio de símbolos espirituais.

O Papa Francisco confirma a importância desta dimensão sapiencial da espiritualidade indígena, quando afirmou: “nós, que não habitamos nesta terra, necessitamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para poder entrar sem destruir o tesouro que existe nesta vossa região...” Na Encíclica Lodato si, recorda o Papa que a Terra é a nossa “casa comum”, é também como uma irmã, com a qual condividimos a nossa existência e, como uma boa mãe que nos acolhe nos seus braços”.