Palmas para o helicóptero

As sirenes sobrepunham-se, os bombeiros corriam a esticar mangueiras encosta acima, havia casas e moradores em perigo. A distância segura, os carros paravam, o povo aglomerava-se para ver o triste espetáculo do fogo. Mais um nas zonas altas do Funchal, perto do Laranjal.

O cenário, a que muita gente assistiu ao fim da manhã de 31 de agosto último, não tem quase nada de especial. A não ser dois pormenores: a chegada do helicóptero e a forma como foi recebido: com aplausos mal se ouviu a sua presença ruidosa. A iniciativa, espontânea, foi de um pequeno grupo de transeuntes que se posicionara em frente ao foco de incêndio, do outro lado do vale, na Estrada Comandante Camacho de Freitas.
Às palmas seguiu-se um notório relaxamento. Estava ali um meio aéreo de combate a fogos que fez o reconhecimento do terreno, encheu o balde uma e outra vez e foi determinante no combate a outro incêndio, desta vez em solo urbano.
Mais do que a já reconhecida destreza e empenho do piloto, importa realçar a imagem, cada vez mais comum, de um helicóptero a poucos metros de telhados em pleno casario das zonas altas da Região
Afinal, é possível empenhar meios aéreos nas encostas da Madeira. Afinal, é possível abreviar o sofrimento de dezenas ou centenas de famílias. Afinal, é possível derramar água sem destruir casas. Afinal, é possível apagar fogos sem fazer deslizar a montanha. Afinal, é possível tomar água doce, sem recorrer ao mar.
Afinal, tantos argumentos apresentados ao longo de anos caem por terra com a mesma leveza da água que apaga os incêndios, uns atrás dos outros. Seja em escarpas remotas, sejam em zonas habitacionais.

Afinal…

Bom, afinal, muitos de nós foram feitos tolos por catedráticos do saber de coisa nenhuma ou de ciência inventada. E assim, com a prática, se desfaz um mito que durou mais de 30 anos e que privou os madeirenses de meios de segurança que eram eficazes em tantas latitudes, mas que na Madeira nem sequer eram testados. 
Foi preciso a tragédia de 2016 para que o tema fosse realmente colocado na ordem do dia. Foi preciso aquele susto sobre a cidade do Funchal e o rasto de destruição e morte que causou para que, a custo, as entidades políticas aceitassem testar os meios aéreos. E, mesmo assim, com alguma resistência porque esses meios, autorizados na Assembleia da República, não tinham ordem de entrada nesta aldeia.
Passada a politiquice, todos os que acreditavam nos meios aéreos já perceberam que foram enganados.  Que o helicóptero – que não pode ser a solução para todos os males – é sem dúvida um equipamento fundamental.
Chegados a esta conclusão é ver a hipocrisia à solta por aí. É ver alguns dos que mais se opuseram a estes meios – mesmo quando foram precisos – a admitir, com ligeireza, que o helicóptero é determinante.

Mudar de opinião pode ser um exercício de sabedoria, mas convém reconhecer o erro de décadas. Caso contrário, voltamos àquela brincadeira do futebol em que o adepto do clube que perdeu garante que era do clube que ganhou. Também agora, há quem jure que sempre defendeu os meios aéreos contra fogos na Madeira. Só falta acrescentar: “Desde pequenino”.
Pequenina foi a visão que nos trouxe ao longo de décadas sem este meio fundamental.