Voar

Tal como milhares de pais, um pouco por todo o país, estou com os nervos à flor da pele. Ao longo deste fim-de-semana, vamos estar a roer-nos de ansiedade, enquanto tentamos parecer minimamente tranquilos perante os nossos filhos e filhas. Os nossos rebentos, por sua vez, hão-de estar ou impossíveis de aturar, ou eléctricos, ou enfiados no quarto, alguns em despedidas efusivas com a malta amiga que vai ficar para trás, outros ainda chorosos pela separação forçada de namorados e namoradas. 

A partir de segunda-feira, dia 9, vamos ficar a saber quais os que garantiram o acesso à Universidade. Quem já passou por isso lembra-se bem da expectativa, da dificuldade em conseguir aproximar-se da lista de colocados, da explosão de alegria ao lermos o nosso nome impresso, ou da procura repetida e desesperada pelo nome que não aparecia, até nos mentalizarmos que tínhamos mesmo ficado de fora. Mais uma vez, este ano, como em todos os outros anos desde que fomos nós a passar por isso, estes momentos de exultante alegria ou profunda tristeza vão repetir-se, por entre abraços de celebração ou de conforto.
    Para quem é ilhéu, todo este processo é mais doloroso e difícil, não tanto para quem fica, porque poderá voltar a tentar no ano seguinte ou conformar-se com outras alternativas, mas principalmente para quem parte.
Para a maioria destes jovens estudantes, será a primeira vez que estarão tanto tempo longe dos pais. Ao contrário dos seus colegas continentais, poucos poderão dar um salto à “terrinha” para passar o fim-de-semana, ou receber visitas regulares de familiares. Terão de adaptar-se a um local completamente novo, a um clima totalmente diverso, a pessoas que não os vão entender por causa da pronúncia, que os vão tentar imitar falando “açoriano”, que os vão menosprezar por serem da terra do Alberto João, que vão comentar que da Madeira só costumam chegar bêbados e maricas. 
    Também vão conhecer lugares e pessoas novas, apaixonar-se, viver, criar amizades para a vida, uns terão sucesso e outros irão fracassar, uns irão passar os anos de ensino superior fechados num quarto a “marrar”, outros acabarão por licenciar-se em boémia, a maioria saberá encontrar a sensatez do meio-termo, concluir os seus estudos sem problemas de maior, abrir horizontes e ganhar mundo.
    A maior parte de nós, pais, só os voltará a ver no Natal. Até lá, vamos sofrer um pouco todos os dias: será que estão bem, será que se estão alimentando em condições, espero que ele não adoeça, espero que ela não ande sozinha à noite, porque é que ele não me atendeu a chamada, será que ela não se está a conseguir adaptar? Vamos sentir falta até daquele silêncio tão típico dos adolescentes, quando estão fechados no seu universo de snapchat, discord, instagram e whatsapp. 
    Como se não bastasse, há a logística: a viagem e o alojamento. Passagens caríssimas, cujo preço curiosamente disparou, em ambas as companhias, no exacto dia em que saíram os resultados dos exames nacionais. Para quem tem perspectivas de colocação em Lisboa, conseguir alojamento é uma aventura. Preços absurdamente inflacionados, cubículos arrendados sem contrato e a peso de ouro, vãos de escada disputados com afã a custo de hotel, com despesas não incluídas. Uma selva. 
    É nesta selva que me irei encontrar, quando lerem este texto. A fazer tudo para que o meu João Henrique tenha as condições básicas para abrir as asas e voar. 
    A todos os outros, desejo o mesmo que espero para o meu: sucesso, felicidades e um bom voo.