De volta

Regressei. Precisei de tempo para pacificar as palavras. Ou o coração. Ou o modo como ele andava a interpretar o mundo. 

Peço desculpa, porque me fui embora sem dizer nada. Há coisas assim. Volto agora, em setembro, que é – como janeiro - o tempo de recomeçar: o trabalho, a escola, a vida comum. Volto agora, porque tive saudades de si. Volto porque sim. E trago palavras ilhoas, desejos de outros lugares, a consciência dos limites de quem, como nós, é constituído de matéria geográfica: pedra, água e infinito e vento a dirigir o nosso olhar, ora para o chão, ora para o céu.  
    Voltei para falar do tempo e da falta dele, da coragem e da falta dela, das memórias que povoam quem sou e daquelas de que me apropriei. Voltei para falar de Deus e dos homens, da luz e das sombras, da poesia e do desencanto, porque é para isso que servem as (minhas) palavras. Se elas servirem para alguma coisa, este meu regresso terá valido a pena. 
    E brindo – porque setembro é o mês do vinho – à vida. À nossa. Porque estamos aqui. Porque vemos. Porque temos saúde. Porque temos quem nos ama. Porque amamos alguém. Porque temos o mundo à nossa beira. Porque podemos ser felizes.  Brindo às coisas novas que virão e às palavras que o futuro trará. Porque há palavras que salvam. Porque há palavras. E futuro. 
    Voltei, portanto, meu amigo. Trago comigo o canto doce das vindimas e a alegria das coisas pequenas. Hei de falar delas, se Deus quiser. E de esperança. E sim, brindo a isso também: à esperança. E a si. 
     Obrigada por ter esperado por mim.