O arraial da paróquia

Em setembro era tempo de arraial na paróquia, com novenas ao longo da semana e procissão garantida em dois domingos consecutivos, anunciadas com estrondosos petardos, lançados pelo meio-dia, em maior ou menor número consoante a prodigalidade dos festeiros.

No terreno, hoje coberto de habitações, entre a estrada principal e a pequena capela, alinhavam-se os bazares construídos com varas e cobertos de vegetação fresca. Bandeiras riscadas ou exibindo a cruz vermelha dos cruzados eram colocadas a espaços, e os seus postes serviam de suporte às grinaldas de flores de papel e às gambiarras que ziguezagueavam pela colina acima iluminando o recinto. No topo, ficavam instaladas as barracas de comes e bebes, o cheiro a canja e carne de vinho e alhos e o fumo do braseiro para as espetadas em pau de louro. Ali perto, junto do adro engalado da capelinha, como charneira entre o religioso e o profano, ficava o coreto, onde as bandas filarmónicas interpretavam canções em voga, de ritmos bem diferentes dos temas em toada introspetiva que tocavam nos domingos a acompanhar a marcha lenta da procissão, acrescendo-lhe solenidade.

A preparação da festa iniciava-se antecipadamente, quando os paroquianos nela envolvidos batiam às portas pedindo a colaboração de todos. Cada um dava o que podia e do que tinha, quase sempre produto do seu trabalho e que era depois exibido quando, na tarde do sábado em que oficialmente se inaugurava a festa, representantes dos vários sítios passavam, em alegre romagem, rumo aos bazares com os bens conseguidos nos peditórios: bordados, rendas, objetos decorativos, bolos, sacos de broas, garrafas com aguardentes, vinhos e licores, vasos com plantas, produtos hortícolas arrumados em coloridas charolas, algum galináceo aninhado numa gaiola e notas de escudo de vários valores, presas com alfinetes, não fossem voar com a brisa, sobre colchas de seda transportadas por jovens que as suspendiam pelos cantos, mantendo-as abertas para que o dinheiro ficasse à vista de todos.

Uma vez tudo arrumado, nas prateleiras de pau dos bazares – orladas com folhinhos de papel de seda – começavam as vendas diretas, ou através de sorteios de rifas vendidas por jovens que iam circulando pelo recinto e incitando os presentes a tentar a sua sorte. Muitos o faziam, talvez não porque o produto em sorteio fosse do seu interesse, mas porque sabiam estar a contribuir para um projeto comum: para além de almejar ajudar os mais necessitados a congregação tinha o objetivo de angariar dinheiro para a construção de uma nova igreja, uma vez que a pequena capelinha se tornara diminuta para o número de fiéis.

A paróquia foi crescendo, as tecnologias trouxeram novas possibilidades e outras características ao arraial. Altifalantes instalados no cimo da torre da capela permitiram levar os sons dos serviços religiosos até bem longe e roubaram o espaço das bandas filarmónicas para os discos de vinil. Na sacristia, jovens entusiastas da rádio, passavam discos modernos, muitos a pedido de amigos que aproveitavam a oportunidade para fazer uma dedicatória genuína, folgazona ou despeitada a alguma pequena, ainda que não lhe soubesse o nome ou não o quisesse revelar. Através do altifalante era comum ouvir algo como:

– Para a menina de saia azul e blusa às riscas (nome da música), de um seu admirador secreto.

A rapaziada à porta da sacristia, com vista privilegiada para o recinto, observava as raparigas que fingiam não dar conta da sua presença e menos ainda da dedicatória. Porém, dissimuladamente, passeavam o olhar em derredor para descobrir quem estava trajada da forma descrita e cochichavam hipóteses sobre a identidade do admirador.No domingo, saía a procissão com a Senhora do Livramento no andor; os meninos de branco; o padre de casula bordada, envolto em fumos de incenso, emanados do turíbulo balançado pelo seminarista que o precedia; as beatas de traje novo, véu rendado na cabeça e olhos no chão e os aflitos, descalços e insensíveis aos pingos da cera do sírio a derreter-se-lhes quente sobre as mãos.