Há incêndios e “incêndios”

Muito se tem falado, actualmente, nos incêndios que destroem a maior floresta do mundo, a Amazónia. Muito se tem falado nos incêndios que, diariamente, se verificam um pouco por toda a Europa, incluindo Portugal e, infelizmente, a Madeira. A vaga de calor que se abateu sobre estas regiões do mundo, a ajuda de mãos criminosas e a falta de consciência no que, a prevenção de fogos existe, são os grandes responsáveis pela destruição dos “pulmões verdes” do planeta Terra.

Vem isto a propósito, não apenas da grande Amazónia, destruída por interesses comerciais que vão da desmatação para o corte de madeiras preciosas, para a criação de fazendas agrícolas ou para pastos, mas, também, pela publicação de um mapa de satélite que monitoriza os incêndios pelo mundo. Reza o mapa, e mostra em imagens reais, fogos diversos, com relevo especial para a zona Central de África, na qual, obviamente se inclui Angola.   Acompanham, o respectivo mapa, notícias que dão conta desses fogos. Pode ler-se, por exemplo, no ‘El País’, de Espanha: «Em plena agitação mundial pelos incêndios na bacia do Amazonas, uma imagem de satélite divulgada há alguns dias pela NASA e analisada pela Weather Source revelou que na África Central havia mais incêndios do que no Brasil. Somente em Angola e no sul da República Democrática do Congo (RDC) havia mais de 10.000 fogos ativos, contra os 2.127 do país sul-americano».
   Cabe, aqui, em jeito de crónica e informação, colocar algumas, quiçá muitas, reticências a estas notícias ou, melhor dizendo, no que a Angola e Congo dizem respeito. Antes do mais, urge apontar, exactamente a diferença entre incêndios florestais e “queimadas” e ouvir a voz de quem, em Angola está abalizado para falar do assunto.
   «As queimadas são um fenómeno frequente na estação de seca nas savanas de Angola ou Moçambique. Esses incêndios são responsáveis pela renovação dos ecossistemas. Depois dos fogos, a savana torna-se verde no mês de outubro. Em entrevista à DW, a ministra do Ambiente de Angola, Paula Francisca Coelho, afirmou que não faz sentido comparar situações completamente diferentes.
   "Não há necessidade de se levantar aqui parâmetros comparativos relacionados aos incêndios  que estão a decorrer, no Brasil, com o nosso país, Angola. Neste momento, não temos nenhum incêndio em ocorrência e o que acontece são queimadas feitas por algumas das nossas comunidades para a preparação dos solos para a próxima campanha agrícola", afirmou.
   Pelo twitter, o ministro da Comunicação Social de Angola, João Melo, escreveu que "confundir fotos de capim a arder em Angola, com incêndios massivos em florestas é brincadeira”.
   Se, por um lado, a prática das queimadas em África e nomeadamente em Angola é ancestral, tradicional e usual, isso não significa que, com elas, os solos percam, por exemplo, micro-organismos importantes ou se destruam parte dos ecossistemas existentes. Contudo, tal prática destina-se, não apenas a limpeza de terrenos mas ao denominado “pousio” que consiste em aproveitar, com a ajuda das chuvas que caem nesta altura do ano, como fertilizantes naturais, as cinzas resultantes e permitir, pelo menos durante um ano, o descanso das terras para novas plantações.
   Mas, podem perguntar se em Angola não há incêndios florestais. Claro que sim, embora raros, mas, olhar os mapas da NASA e as notícias que os acompanham como dados adquiridos e fazer comparações, como referiu o ministro João Melo, com incêndios massivos em florestas é brincadeira, é ignorar, por completo, uma realidade bem conhecida de quem, em Angola, vive e usa a terra para seu benefício há séculos. 
   Um bom fim de semana com votos de que a Amazónia seja protegida e que, na Madeira, os fogos não tirem, à ilha, não apenas a sua incomparável beleza, mas, especialmente, o ar puro e o seu clima de eleição.