O que o vento traz, o vento leva

"A política surge não no indivíduo, mas sim entre indivíduos, que a liberdade e a espontaneidade dos diferentes indivíduos são pressupostos necessários para o surgimento de um espaço entre homens, onde só então se torna possível a política, a verdadeira política. O sentido da política é a liberdade."
Hannah Arendt

 

A 22 de setembro vamos eleger os nossos representantes parlamentares e, consequentemente, o próximo Governo.

Intriga-me compreender que a diversidade e/ou a quantidade de partidos que vão a votos (17) não é um fator necessariamente positivo na realidade regional. A principal caraterística desta campanha eleitoral, e detesto ter que assumir isto, reside no fim da esquerda e da direita tal como as conhecemos – tempos em que a ideologia valia mais do que os cargos políticos que poderiam vir a ocupar.

São demasiados aqueles que apostam em vitupérios, mais do que em discursos que defendam o interesse público. Promovem a infâmia e a ignomínia sem perceber que afastam cada vez mais os eleitores dos grandes momentos de decisão do futuro da Região. Os contornos ideológicos de "um lado e de outro" estão cada vez mais vagos, mais difusos, menos coerentes. Diz-se e propõe-se o que o vento traz, esquecendo que quando o vento leva, nada resta.

Nesta amálgama eleitoral, cada vez mais confusa, sobressaem os políticos mais do que os partidos ou as ideologias, e começam a ser demasiados aqueles que negam a dicotomia esquerda/direita em detrimento das "causas" (uns mais do que outros). Em alguns casos, estas "causas" não são mais do que discursos que procuram espalhar a ignorância, a animosidade e, em alguns momentos, a violência, colocando quem não os apoia como "traidores das novas causas".

Já diz o ditado: "pior cego é aquele que não quer ver". Estes "políticos", cegos, não admitem a crítica. Só o que lhes convém é verdade. E isto gera uma espécie de sentimento de superioridade que, a seu ver, "tudo se lhes permite". Desenganem-se. Estes são sintomas de baixeza moral e pequenez intelectual. Nestes casos, estamos em presença de um "político" verdadeiramente menor.

Mais: quando este tipo de "político" se rodeia de aduladores, bajuladores, idiotas úteis, oportunistas ou calculistas, qual é o resultado que se pode esperar? De que serve limitar-se aos clubismos de mentes fáceis de dominar, mas impossíveis de utilizar? Inquieta-me o voto nestes "fenómenos políticos emergentes" que nem se dão conta do opróbrio que pesa sobre as suas cabeças. Atente-se ao oportunismo e ao servilismo – ensinaram-me que nenhum dos dois é caraterística de um bom caráter.

Apesar de compreender que alguns se revejam nesta forma de fazer política, não entendo como se podem perder as referências sobre o que é democracia, moral, ideologia, retidão, caráter.

Que defendem, afinal? Sem as diferenças ideológicas, o que sobra? O que diferencia um partido de outro? Apenas uma questão de retórica, no fundo, não é?