“Se sabe falar, sabe cantar” –  competência musical

Na cultura ocidental, a competência musical é considerada uma habilidade exclusiva daqueles que beneficiaram da prática ou aprendizagem formal da música. Contudo, esta ideia é limitada, pois a competência musical é um conceito mais amplo e universal (presente em todas as culturas).

A música, tal como a linguagem, é uma forma de comunicação humana, conceptualizada como uma capacidade cognitiva que apresenta duas dimensões: recetiva (perceção) e expressiva (produção).

Em relação à dimensão expressiva, se alguém é competente na produção linguística, essa pessoa tem a habilidade de falar, enquanto que a competência musical de produção significa saber cantar ou tocar um instrumento musical. No que diz respeito à dimensão recetiva ou de compreensão, seja da linguagem ou da música, todos somos competentes como ouvintes, mesmo sem ensino linguístico ou musical formal. No caso específico da música, pela exposição passiva e consumo (desde a vida intra-uterina e ao longo do ciclo vital) aprendemos de forma implícita, inconsciente, e sem qualquer esforço, as regras da estrutura musical da cultura onde estamos inseridos.

Todos os bebés nascem com a capacidade inata de internalizar a estrutura musical da cultura circundante, num processo chamado de enculturação. Para além disso, o modo distinto como os adultos interagem e comunicam com os bebés, caracteriza-se pela musicalidade. Os pais/prestadores de cuidados utilizam elementos musicais, como a prosódia (entoação na linguagem) para expressar emoções que, por sua vez, ajudam a regular o estado emocional e de atenção do seu bebé. Curiosamente, as canções de embalar possuem características comuns a todas as culturas, como a linha melódica repetitiva e pouca amplitude tonal, atributos que facilitam a aquisição e o desenvolvimento da linguagem.

Resumidamente, o cérebro humano apresenta circuitos específicos para o processamento dos componentes musicais, que são independentes da linguagem. A escuta constante desenvolve a perceção musical (competências recetivas) que com o passar do tempo, aprimora e prepara a comunicação. Um estudo realizado por Nina Politimou, publicado este ano, na revista Frontiers in Psychology, demonstrou que a experiência musical informal (cantar e criar músicas), adquirida em casa, em crianças de 3 e 4 anos, é um preditor do desenvolvimento da linguagem, com efeitos positivos na consciência fonológica e na gramática.

A descoberta das capacidades musicais inatas dos bebés e dos circuitos cerebrais específicos para a música, independentes da linguagem, têm motivado estudos e debates sobre a relação evolutiva entre música e linguagem. Do ponto de vista filogenético, Rousseau (1712-1778), Charles Darwin (1809-1882) e muitos cientistas acreditam que a música e a linguagem evoluíram a partir de um percursor comum, a “protolinguagem musical”. Outros neurocientistas argumentam, porém, outras hipóteses, sendo que a teoria mais dominante sugere que a linguagem moderna evoluiu da música. Caso se confirme, o provérbio africano “Se sabe falar, sabe cantar” nunca fez tanto sentido!

Em conclusão, a música não é apenas uma atividade artística ou sociocultural. A música também é uma competência (recetiva) inata que facilita a aquisição da linguagem. A música vive em nós, descobri-la é desvendar a natureza humana.