Os números do ensino superior

Na primeira terça-feira de Agosto terminou a primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior Público, com um registo de 51.291 inscrições que, face ao ano lectivo anterior, ilustra um aumento de 3,4%. Este crescimento – que poderá ter sido causado por uma série de factores – representa, para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, "um sinal positivo", ambicionando que, em 2030, frequentem seis em cada 10 jovens de 20 anos este nível de ensino, de acordo com uma nota à imprensa.

A tendência do aumento da procura do ensino superior pelos jovens em Portugal ainda está aquém das metas europeias, mas tem vindo a melhorar. Na presente década, melhores resultados têm vindo a surgir a vários níveis. O número de estudantes inscritos pela primeira vez no ensino superior cresceu de 87 mil, em 2014-2015, para 103 mil, em 2018-2019. Além disso, alcançámos, pela segunda vez na última década, mais candidatos do que vagas disponíveis no acesso ao ensino superior.

Este crescimento positivo surge, inevitavelmente, pela influência de vários factores e a tomada de diversas decisões. Um desses indicadores, e uma vez que o acesso está muito condicionado às notas dos exames nacionais, pode estar relacionado com a melhoria das notas dos exames nacionais em 2019. Mais especificamente, Português e Matemática – as duas disciplinas mais usadas como provas específicas de ingresso – melhoraram 0,8 e 0,6 valores, respectivamente, passando para uma média nacional de 11,8 e 11,5.

Além disso, a diminuição do valor máximo das propinas, uma medida do Orçamento do Estado para 2019 e que foi largamente discutida nos meios de comunicação social em Portugal, pode também ter possibilitado a mais jovens a oportunidade de se candidatar para o ensino superior. Infelizmente, presume-se que continuamos a perder jovens para este nível de estudo, que não se candidatam devido à sua situação financeira, bem como a existência de jovens universitários que, após frequentarem o ensino superior ao longo de alguns meses, acabam por desistir ou abandonar este nível de ensino, cujas razões – assumindo que uma delas são as dificuldades económicas – e respectiva incidência ainda estão por conhecer.

O grande problema do ensino superior não se encontra, apenas, no acesso mas sim em garantir a permanência, evitando assim as desistências e os abandonos. Não há motivos para destacar os mais 1.666 candidatos ao ensino superior relativamente a 2018, se depois, segundo os últimos dados conhecidos – que, curiosamente referi no artigo “Queremos Compreender o Abandono?” para o JM em 2018 – do ano lectivo 2014-15, cujo número de abandonos para uma licenciatura situa-se entre os 29%. Trata-se de um dos maiores problemas no ensino superior que parece estar camuflado na sociedade, uma vez que em Portugal temos pouquíssimos dados referentes a este problema.

A Académica da Madeira já se candidatou a dois projectos para analisar, entender e combater o fenómeno da desistência e do abandono na Universidade da Madeira. Desde o ano lectivo 2017-2018, realizámos inquéritos aos novos alunos que irão voltar a ser repetidos ao fim de três anos, para obtermos um retrato do estudante da nossa Academia: se ainda frequentam a mesma licenciatura ou se desistiram, tentando perceber as razões caso tenham abandonado ou desistido do ensino superior.

Os dados de acesso deste ano são claramente positivos, e são manifestamente um sinal positivo, alinhado com os objectivos europeus. Não podemos é deixar de entender os números das desistências e dos abandonos de forma mais consistente e periódica, sob o risco de tomarmos decisões sem conhecer as suas causas e respectivas incidências. Tão importante quanto o acesso ao ensino superior, é garantir a permanência dos seus estudantes.