Tiros pela culatra

Vêm aí eleições. Para os madeirenses vêm a dobrar, como se estes ilhéus precisassem de castigo em cima de castigo. Se calhar até precisam.

Quem vota, à partida, fá-lo por acreditar que o voto democrático é a melhor forma de fazer avançar a sociedade em que se insere, no sentido em que pretende. Fá-lo porque acredita na bondade do voto, e porque acredita que está, efectivamente, a dar a sua opinião — e que esta é importante para quem agraciamos com o nosso precioso voto. Regra geral, quem se apresenta a votos interessa-se pouco por opiniões além das suas. Pretendem os votos, e prometem aquilo que o vento lhes diz ser o lado para que sopra. Repare-se na espantosa coincidência de todos os programas a sufrágio nas próximas eleições legislativas, quer venham dos partidos da tal geringonça que permitiu quatro anos de governação mais ou menos pacífica, ou dos partidos que se vêem no papel de oposição, apregoarem a descida de impostos.

Os partidos do arco da governação, de quem dizer que sempre fizeram por aliviar a carga fiscal sobre quem produz valor seria o epítome do sarcasmo, prometem-no. Os partidos que seguraram o governo, do qual se dizem afastados mas com o qual se imiscuíram com frequência nestes quatro anos, juram que baixam os impostos ao mesmo tempo que ameaçam perseguir fiscalmente quem faz lucro.

A maioria dos partidos, incluindo novos ou de pouca expressão eleitoral, defendem medidas que implicam o aumento da já pesada e custosa engrenagem do estado. Vá; no mínimo, implicam a manutenção do actual peso e custo, pelo que as populares promessas de alivio fiscal carecem de explicação séria e honesta. Se não se tirar sequer um grão de areia do saco, o saco não fica mais leve. Retirar três para adicionar quatro também não resulta.

Apesar de haver programas e juras de cumprimento dos ditos cujos, são muitos os indivíduos que votam mas não os lêem. Acreditam no herói que se perfila na comunicação social como figura de proa da bondade do estado, ou alternativa ao horrendo caos que reina (conforme o ponto de vista), e tomam por absoluta e indefectivelmente fiáveis as intenções dos profetas da sua preferência. Em vez de votar num programa, votam no partido de sempre, mesmo que rosnem, enquanto esperam pela bica frente ao ecrã pendurado na parede, que “são todos iguais!”.

No caso de quem vota na Madeira, como quem se vê perante a opção de saltar para o fogo ou fritar na frigideira, dizem que a escolha é entre a manutenção do status quo, herdeiro aguado do jardinismo, e a mudança de regime, liderada por um homem de dentição tão vistosa como famosa a sua falta de memória. O madeirense até já vê os outros partidos; o mapa regional já não é só a duas cores. Mas ainda há muitos madeirenses só vêem mais do mesmo amiguismo autóctone; votam no favor em potencial.

Talvez seja hora de pensar não no voto no melhor programa (que poucos lêem) ou no próximo messias salvador. Talvez seja hora de pensar na consequência do voto não em nós, mas no nosso vizinho — o tal que põe a cruz no quadrado errado. Quem vota deve ter em conta que, quer seja esse o seu propósito ou não, cada um vota para que se imponha a sua escolha a todos os outros. É a principal regra do jogo. É a regra que define a democracia por voto.

O voto é uma arma. Há-que ter cuidado no premir do gatilho.