A gente se acostuma (...), de tanto se acostumar, se perde de si mesma” *

Tenho ouvido que o futuro da humanidade há de ser de progresso e felicidade, mas que antes disso passaremos por momentos de grandes ruturas e sofrimento.

Não sei. Sei que tenho esperança num mundo melhor e mais justo. Também sei que para o atingir vamos ter de lutar as lutas dos outros que, se pensarmos bem, até são as nossas. Acredito que as pessoas são capazes do melhor, mas também do pior. Ainda em fins de julho deste ano, o jornal The Guardian, publicou uma reportagem sobre a existência de escravatura no Reino Unido. Mencionava-se que se pensa existirem cerca de 13 mil pessoas escravizadas só para a plantação de cannabis. Mais de metade crianças, com menos de 18 anos. De várias nacionalidades. Muitas vietnamitas. Vieram para a Europa trabalhar, pensavam. Sabemos que em Portugal este tipo de trabalhos forçados e não pagos existem igualmente. O mesmo por toda a Europa.

O tráfico de seres humanos existe neste séc XXI. O racismo existe igualmente neste lado da Europa, dita desenvolvida. O desejo de regresso à ditadura, de discriminação e perseguição por questões religiosas, raciais, de orientação sexual, económicas e sociais volta a tentar emergir neste presente em que vivemos. Na União Europeia, cujos estados defendem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, começam a reavivar-se ideias que eu pensava já definitivamente arrumadas e enterradas. Mas não! Ainda no passado sábado, aconteceu em Lisboa uma conferência da extrema-direita europeia, organizada por Mário Machado, um neonazi português que já cumpriu pena de prisão de vários anos, por ter cometido crimes graves. Lê-se no jornal Público de 10 de agosto “(…) Nem toda a gente sentada na sala exibia sinais exteriores da ideologia que ali se discutia mas alguns, como a oradora italiana Francesca Rizzi, não o escondiam, exibindo nas costas uma tatuagem com uma águia e uma suástica. Depois de um longo discurso contra os homossexuais, contra a ideia da “raça mista”, contra os imigrantes, contra os judeus, e pela defesa da “raça ariana”, levantou-se e fez a saudação nazi, dizendo “sieg heil”. Houve quem repetisse o gesto.”

Há quem defenda que em democracia existe liberdade de opinião. Contudo, repito o que li num cartaz: “Mensagens de ódio não são opinião. São crime”. Declarou à TSF Myriam Zaluar, uma manifestante contra esta conferência: "Há uma grande confusão na opinião pública entre a liberdade de opinião e a tolerância para com movimentos que são proibidos pela Constituição. Vivemos num mundo totalmente globalizado e o facto destes movimentos não terem grande expressão em Portugal não nos deve fazer pensar que estamos livres de eles poderem ganhar amplitude". Em 1937 ninguém pensou que Hitler e o nazismo pudessem gerar o genocídio que aconteceu. No fim do séc XX ninguém pensou que a barbárie voltasse a acontecer nos territórios da ex-Jugoslávia. Mas aconteceu.

Apesar de estarmos em agosto e de a “silly season” permitir futilidades, aproveito o meu espaço de opinião para alertar para estes sinais de perigo da democracia. No final de Matrix, Neo afirma (…) não vim aqui para vos dizer como isto vai acabar. Vim dizer-vos como isto vai começar. (…) O que fizermos a partir daí, é uma escolha que deixo convosco.” Está tudo nas nossas mãos.

* Marina Colasanti