A pobreza ainda mora aqui. E o caciquismo também

1.  Num tempo em que as políticas sociais estão no topo da agenda de qualquer aspirante a político, descobre-se, sem grande surpresa, que persistem fenómenos como a fome e a falta de dinheiro para bens essenciais, como alimentos e medicamentos. Já nem se fala aqui da falta de emprego, das carências habitacionais, das dificuldades em pagar contas.

Curiosamente, os números, no caso das carências alimentares, quase não oscilaram nos últimos anos. O que, entre outras leituras, significa que falharam as políticas desenvolvidas nesse setor. Falharam os apoios dados a rodos, sem critério objetivo. Falhou a visão tantas vezes proclamada.  E, anos depois, estamos praticamente na mesma, com um programa de emergência alimentar que, afinal, parece de assistência permanente.

No mínimo, é preciso rever medidas e critérios. No mínimo, é preciso perceber como agir para ajudar tanta gente a sair do buraco da pobreza. Mesmo àqueles que se habituaram a viver no limiar da indigência.

Por tudo isso, talvez esteja na hora de pensar em agir em rede. Em evitar a duplicação de apoios para uns, enquanto outros experimentam dificuldades todos os dias. E perceber, de uma vez por todas, que o exercício de governar é muito mais do que dar, mesmo em época de eleições.

2.   A forma como os partidos cederam perante as concelhias e outros interesses nas listas de candidatos a deputados mostra a força invisível do caciquismo local. Embora com menor ruído e expressão, os caciques ainda mexem. Talvez sejam menos espalhafatosos e mais prudentes, mas continuam influentes. E andam por aí. Pululam entre os melhores, passam à frente dos mais competentes, ou abrem caminho para os seus. E porquê? porque quem decide precisa deles para decidir.

Parece intrincada esta equação, mas até é bastante simples: o peso das máquinas partidárias é, em muito, sustentado no caciquismo de trazer por casa. Naqueles militantes que, por obra e graça de uns favores, garantem dezenas de votos que podem ser decisivos para eleger um ou outro líder partidário. Esses favores cobram-se na hora certa, que é agora. E são caros.

À parte este fenómeno, o processo de constituição das listas tem alguns méritos. A começar por trazer para a primeira linha da cidadania ativa nomes válidos que, noutros tempos, ‘fugiam a sete pés’ da política. Porque esse espaço era visto como uma reserva, uma coutada de alguns, quase sempre os mesmos. E já não é bem assim.

Em muitos casos são independentes, vivem fora da esfera partidária, mas é-lhes reconhecido mérito profissional, pessoal, e social. E aceitam intervir politicamente numa fase em que a política já nem é financeiramente tão atraente, correndo mesmo o risco de sobrar para os que não sabem fazer mais nada.

É evidente que esses independentes desagradam aos militantes de sempre que, apenas por isso, se acham investidos de direitos maiores. Mas também é claro que são esses que trazem ideias novas e outra visão ao serviço público. São esses que, em qualquer momento, podem voltar à sua vida profissional sem depender das estratégias e dos caprichos dos diretórios partidários.

No meio de um interessante número de caras novas, é justo reconhecer uma crescente participação das mulheres. Já não só por causa das quotas, mas por mérito próprio. Por desejo de participação ativa num mundo que cada vez mais deixa de ser apenas de homens com cartão de militante.